sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Sobre a Despedida do Poeta que Até Hoje Sempre me Habitou

Me pediste que escrevesse um poema dizendo o quanto te amo

E porque meu hábito sempre foi te agradar,
Fazer de tudo para provocar em ti esse sorriso
Que em mim outro sempre resultou
Correndo vim, atrás de contemporâneas, digitais penas e papiros
(porque melhor cai aos românticos romantizar cenários)
Confiante de que neles deitaria versos para te encantar
Como desde a primeira vez em que te vi
Virou meu vício
Momento de prazer supremo
Me entregar ao sacrifício
O sacro
O sagrado ofício
De descortinar a constelação de estrelas que sempre brilhou em teu rosto
A cada nova estrofe que com teus olhos devoravas
Causando em mim a sensação de herói
De Deus, ainda que não seja
Blasfemo mundano, que na realidade sou
Bardo apaixonado
Minha vida só encontrou sentido
Quando destinada foi a te escrever e te entregar poemas

Mas sinto muito
Muito mesmo, amada minha
Muito mais do que tu possas imaginar
Porque é sofrido é por demais
Admitir o quanto ao passo que os sentimentos cambiam
Nosso talento, até fenecer, definha
E tenho que admitir, em minha suprema incompetência
Que não sou mais capaz de te escrever poemas de amor.

Falhei, amada
Não posso mais ser teu poeta
Não posso mais te encantar
Não tenho mais talento para tal

Não porque não mais te mais ame
Não porque não sejas a suprema musa que um poeta possa ter
Não porque não sejas cada vez mais a razão dos meus dias
Ao contrário
A ausência de poemas, a partir de hoje
É a maior das provas da existência e da grandeza desse amor
Amor esse tão supremo e lindo
Que nenhuma poesia
Que eu ou outro homem jamais pudesse lavrar
Seria capaz de descrever
O verdadeiro milagre que o teu chegar provocou em minha vida.

Por isso, a partir de hoje
Não mais poeta
Não mais bardo
Não mais cantor

Apenas teu homem
Teu marido
Teu amor

Não mais poemas
Não mais versos
Não mais cantigas

Nossa poesia, a partir de hoje, se fará de vida
E é com as tintas do amor
Que haveremos de grafar nos dias
A mais linda história que a um homem e uma mulher foi reservada

Não, nunca mais te escreverei poemas
Se é que acreditas
Minha Chele
Meu amor

Ton Neumann
São Sebastião do Rio de Janeiro
Aos nove dias do mês de outubro de 2009
A esperar tua chegada.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Para que Saibas

Não há qualquer demérito no que te revelo
Qualquer falta de reconhecimento ou motivo sobre tuas qualidades
Que são tantas e incomensuráveis...
Também isso não há

Não há ainda razões para que se zangue,
Ou desconfie que é menor esse amor maior que nutro por ti

Mas para ser fiel a verdade
Devo dizer que não te escolhi
Tampouco o fez meu coração,
Esse velho companheiro
Ornado por cicatrizes tão explícitas de amores do passado,
Cúmplice de lágrimas de dores de perdas
Parceiro de infortúnios
Que eu já julgava inválido
Moribundo
Sem porquê

Não, mulher minha
Não te escolhemos.

Foi com encanto e surpresa
Que vimos esse amor nascer dentro de nós
Sem que nada se houvesse a sobre ele explicar, explicitar, teorizar, buscar razão
Apenas te olhei e entendi que te amava
Que dentro de mim havia brotado o verdadeiro amor que desde que me dei por mim desejei
Que não me sentia mais só no mundo
Que não aceitava mais conduzir meu corpo,
Há tanto tempo já tão sem vida,
Sem a luz tua que me devolveu os e aos dias
Desde a primeira vez em que te vi

Eu já sabia que existias
Por que sabia que um amor
Havia de estar reservado para mim
Que não era direito que Deus me condenasse a deixar esse corpo
Sem provar da maravilha
Que é estar dentro do teu
Acordar ao teu lado
Sorver teus múltiplos licores pela noite a fora
Sentir tuas coxas enrolarem-se nas minhas pelas madrugadas
Gozar do sono profundo e tranqüilo
Que usufruem os amantes
Ao dormir tocando aquele que amam
Depois de entregarem-se à exaustão àqueles a quem descobrem posseiros de seu corpo

Não, eu não te escolhi.
Quando me dei por conta
Esse amor já me habitava
Mais do que isso
Passou a ser a própria razão para que voltasse a crer que vale a pena viver
A descobrir minha missão
Que outra não é, senão
Que se me dar a ti por todos os dias e noites
Através de meu cuidado a tudo que a ti diz respeito
De meu me entregar
Do resenhar do roteiro dos dias que haveremos de juntos
Um ao outro cevar
Do parir de cada manhã
Por que depois que nos tivemos um nos braços do outro
Passamos a ser nós que determinamos o tempo.

Não te escolhi, meu amor
Não és mais uma das nefastas histórias de perda de meu coração
Teu amor se apoderou de mim
Sem pedidos de licença,
Sem reservas,
Sem pudores.

Por isso eu sou teu homem
Por isso é minha mulher

E nem mesmo a morte há de nos separar
Minha Chele,
Meu amor.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Sobre Algumas das Formas em que Dou Forma a meu Amor por ti

Te beijo em forma de poema
Te abraço sob a forma de canção
E assim vou metendo agrados
Para te agradar
Para te gradecer
Para te agraciar
Em infindáveis tipos e formas de formas em que moldo,
Enformo, dou forma aos carinhos que te dedico.

E uma vez, depois que de meu coração os desinforno,
Te os informo
Através de letras, de sons
De mídias
Por onde eu, anacrônico a essas coisas de tecnologia que sempre fui,
Jamais pensei transitar
Mas nas quais onde hoje me faço fluente andarilho,
Cibernético Eqüeco
Por ver, também nelas,
Formas de te agradar

Mas nenhuma dessas formas,
Informa cada pedaço de meu corpo,
Forma tão cheia maré de felicidade
E a cada parte de eu corpo inunda
Mareia tanto meus olhos
Ou me aproxima mais de minha alma
Quanto o roçar de tua pele na minha
De teus pelos nos meus
Quanto o invadir com o meu teu corpo
Fazendo com que viajes por galáxias que jamais sequer sonhastes
Com que eu me sinta o mais dócil dos bárbaros
Pois me declaras,
Possuída em teus delírios,
O mais poderoso dos viventes
O ser de luz que te traz à vida
E que dela sem qualquer remorso ou pesar te leva
Fazendo com que aches que tanto faz morrer
Se a morte te chegar
Junto a mim
Junto ao prazer que com o corpo de um
Ao corpo do outro ofertamos

Insaciáveis desejos
Indeléveis sensações
Indescritíveis momentos
Impensável ter sentido a vida
Ou valia o verbo felicidade
Sem te ter comigo para o resto dos meus dias,
Minha Chele,
Meu amor

Ton Neumann

Sobre Outras Formas de Poesia

Reclamas
Que já há dez dias
Não te escrevo poemas de amor.

Então te olho com a complacência
Com que se olha para uma criança arteira que não compreende que está a fazer artes
E porque, de fato, és criança,
Te atento para o fato que há dez dias escrevo poemas em teu corpo
Faço de nosso amor uma forma de arte
E te me despejo em poemas
Pelos teus ouvidos em juras de amor eterno
Pela tua boca
Por tuas entranhas
Pelas entradas que se traduzem em bandeiras
Na bandeira deste amor que empunhamos pelos dias
No eterno desbravar de teu corpo
A cada manhã em que começamos o dia a fazer amor

Há dez dias,
Sem que saibas,
Também escreves lindos poemas sobre o corpo meu
Poetiza dessabida e talentosa que és,
Que vai do lírico ao concreto
Com total domínio das artes:
Da poesia
E do amor

Minha menina arteira
Poetiza mor de minha vida
Alegria de todos os meus dias
Dona de meu coração,
Mulher amada,
Mais que tudo por mim amada,
Minha Chele,
Meu amor.


Ton Neumann

quarta-feira, 25 de março de 2009

Mutação

Das poucas certezas que em meu peito, hoje, trago
A mais forte, a mais precisa
É que meu nascimento só se consumou, de fato,
No dia em que te conheci
É esse o marco inicial de minha vida: ter posto os olhos em ti pela primeira vez.

Foi só aí que me tornei verdadeiramente humano
Foi só então que me reconheci, de fato, gente,
De forma inteira homem, em significados que até te ver pela primeira vez, desconhecia

Até então não passava de uma alma adiada
Vestida em um corpo sem sentido
A vagar por entre o gentio

E desprezava os dias por neles não guardar sentido
E desconsiderava as noites, porque nelas não sentia o cheiro teu
Entre tantos cheiros inebriantes que a noite traz
Que ainda que não conseguisse identificar como teu
Ou jamais tivesse provado
Já desejava e amava,
Embora me recusasse admitir

E assim, pela vida a fora, gastava as minhas horas a zombar dos amantes
A fazer troça dos poetas
A maldizer aos menestréis
A repulsar-me com tudo e com todos
Que das coisas do coração algo pudessem dizer
Desvalido, que sempre fui,
Do alento que a esperança traz ao peito daqueles que sem amor

Mas foi quando nossos olhos se cruzaram pela primeira vez
Foi então que entendi o tudo aquilo quanto
Todos falavam sobre o amor

E porque o amor é a fonte da vida
Ao me dares teu amor
Através de teus olhos
O que me deste foi minha própria vida
Me tornando uma espécie de Édipo contemporâneo,
Extemporâneo, Anacrônico
Uma vez que acabava de ser parido pelo olhar mulher amada
Pois foi através do olhar que fizemos amor pela primeira vez
Que pela primeira vez estivemos em conjunção
Que pela primeira vez nos tocamos as intimidades
De forma instantânea

Ungidos pelo cheiro de maresia e pelo barulho das ondas
Reconheci o teu cheiro que desde sempre desejara
E desta forma era, enfim, apresentado ao amor
E então compreendi que ali rompíamos com o mundo, naquele exato instante
E entendi que através desse olhar
Desse amor que nos tomava
Naquele momento, de fato, eu aportava à vida

E ninguém que nos rodeava percebeu
Apenas nós
Com o silêncio que tentava acalmar o coração acelerado a bater
Com o insano vigor do empenho em esconder o arfar dos peitos

O mundo borbulhava em nosso redor
Tentando atrair nossa atenção
Mas nenhum apelo nos distraia um do outro
Nada do que nos circundasse
Era capaz de fazer com que nossos olhos se desgrudassem

E foi então que teu olho me fecundou de ti
E que meu olho te emprenhou de mim
E que desde então nossas vidas deixaram
De merecer esse nome, senão juntas, uma da outra
Pois sei que como a mim,
A ti também não há mais vida
Se a tua não caminhar junto a minha

Por isso hoje nos amamos
E da mesma forma que esse amor nos une
Nos afasta das outras gentes
Pois nada mais guarda sentido
Que não empenharmos, um ao outro,
Nossos dias e noites
Na dedicação dos gestos
Na delicadeza de estar
Nas vigílias de amor intenso
Onde da forma mais sagrada
Profanamos nossos corpos até a exaustão

Pois esse amor
Nos afasta até mesmo dos Deuses que um dia conhecemos
Nos torna assumida e definitivamente hereges
Porque a cada dia que o amor mais nos toma
Que mais se apodera de nós e nós dele
Através dos nossos corpos e das nossas almas
Da poesia que compartilhamos
Eu, como teu bardo
Tu, como minha musa, parceira única de tudo que componho ou comporei,
Mais entendemos que já somos nosso próprio Deus,
Na medida em que somos, um do outro, o próprio criador
Um surpreendente e prodigioso engenho
Deste amor que nos sentimos

Até que um dia
Sem que ninguém perceba ou dê por nossa falta
Sublimaremos nossas formas e nossos sentimentos
Numa dimensão maior, em que nos transformaremos,
De quatro que hoje somos:
Eu, teu poeta
Tu, razão de minha poesia
O amor
O próprio poema
Em um só corpo
Uma mesma alma
Uma única forma
A jogar palavras por entre livros
Revelando em estrofes
Esse mistério mais profundo
De amar e ser amado
Em forma de poesia, alma e carne.
Ton Neumann

segunda-feira, 23 de março de 2009

Teu Sorriso

Nenhum outro resultado
Que esse dom de escrever
Que a mim, por algum Deus foi outorgado
Me pode proporcionar,
Trazer mais alegria ou prazer
Ou ser, mesmo, mais importante
Do que te fazer sorrir

E ainda que não saibas
Quando vejo teu sorriso
Ao ler os versos que espalho por aí
Para que encontres fingindo ares de surpresa
Como não passasses os dias a buscá-los

Com ele meu coração se alegra de tal forma
Que renuncio a tudo que não possa te fazer feliz
Pois não há mais outro sentido em minha vida que não seja esse
Não há mais qualquer outro sentido a minha poesia
Que não seja te fazer sorrir e te trazer para mim
Nessa entrega que te é tão difícil de verbalizar
Mas tão eloqüente na forma de abraços e beijos
Na forma com que te jogas sobre mim
A cada novo poema que encontras

E então eu te pergunto
Não é, mesmo, isso, o amor?

Senhora das Águas

(Letra de Canção, Melodia já composta)
Ela anda sobre as águas
Ela é a rainha das águas
Ela entende a minha dor
Leva pro mar minhas mágoas
Meus desencantos de amor

Senhora dona das águas
Das profundezas do mar
Ajuda a esse teu filho
Reaprender a amar
Olhar pro mundo de novo
Com esperança no olhar
Voltar a crer no amor
Senhora dona do mar

Ela anda sobre as águas
Ela é a rainha das águas
Ela entende a minha dor
Leva pro mar minhas mágoas
Meus desencantos de amor

O coração quando sofre
Fica com medo de amar
Fica descrente das chances
De um novo amor encontrar
Yemanjá o meu canto
É como eu mais sei rezar
Lava meu peito das mágoas
Leva pra longe senhora
Tu que és rainha do mar

Ela anda sobre as águas
Ela é a rainha das águas
Ela entende a minha dor
Leva pro mar minhas mágoas
Meus desencantos de amor
Ton Neumann

terça-feira, 17 de março de 2009

Princesa

Teu súdito, pois, se apresenta
Para que saibas que tal o é
E, por mais insólito que possa ser
O sendo é que sua alegria se faz alegria
Que sua retórica se desfaz
Sua dialética se confunde
E minha poesia volta a se fazer
De (por) amor
Como o arauto que transfigurando um poeta
Anuncia o que talvez possa ser seu fim.

No entanto,
Se tua ira é a da justiça,
Teu reino a de ser o do coração
E perdoarás esse plebeu (seguro estou)
Que em meus sonhos vislumbra
A ti, harmônica qual o poema
Entre estrelas e rubis,
Nobreza e simplicidade,
Sapiência.
Implacável, nesse amor que me arrebata
Violento, sem razão
Pelos campos , vago. Andarilho.
Pastor de idéias, passo as luas a pensar em ti.

Me imagino teu escravo
A conduzir tua liteira
Ou às vezes uma esteira
Onde possas repousar.
Ocupando teus espaços
Vejo-me, às vezes, o ar
Que respiras, que te nutre.
Tua vida. Água pura. Meu sonhar.

Teu sonhar, minha ousadia
Tua vida, tudo o que quero
Como é sentar lado a lado
Contigo nesse trono, hoje ilusão
Um dia, certeza tenho, realidade.

Alteza, ouso então me apresentar
Para teu príncipe ser
Pois já és minha princesa.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Oferenda

De mim
Já conheces o que de melhor e pior
Habita o meu ser.

Porque te abri todas as portas do meu coração
Te acostumaste a caminhar por ravinas em manhãs ensolaradas
Colhendo flores em formas de poemas
Respirando meus abraços e meus beijos pelo ar
Renovando tua alma no caudaloso rio do meu amor
Por onde quer que o destino andasse por te conduzir

Mas porque a vida, em mesma forma se revela por contrastes,
Um dia, também, sem que esperasses,
Conheceste o mar em fúria
E todo o temor que a escuridão da negra noite traz

Minha imensa miséria, que igualmente compõe aquilo que sou,
Então se revelou,
Em forma do mais cruel dos bárbaros
Do flagelo mais impiedoso
Ou de beiços de guri mimado

E sem que estivesses preparada
Te jogou na cara a compreender
O inevitável e inefável fato
Que de fato, humano sou

Ameno, sereno, dócil, manso, carinhoso, amante insaciável
E o mais terrível primitivo selvagem
Se se tratar de defender
O espaço do mundo que me foi destinado
A para sempre viver
Que é teu coração,
Mulher amada

Não te assustes com a constatação
Que a qualidade da perfeição
Não pode em nenhum momento me caracterizar

Sou humano, meu amor
Tenho fraquezas
Sofro dores

Dores que não compreendes
Mas que nem por isso me são menos dores
Que nem por isso me agridem menos todos os dias
Dores que em teu pedestal de Deusa
Sequer imaginas que possa atingir
A quem tão mortalmente mortal
Como eu

A quem tem como maior anseio
Escrever versos madrugada a fora
Na esperança que ao teu despertar
Tenhas a benevolência
De recebê-los
Como oferendas
Que deposito aos teus pés

Pois nada mais são, meu amor
Essas letras que junto em palavras e as palavras com que formo versos
Para compor meus poemas
Do que a mais singela e insolente forma
De também minha vida te entregar em oferenda
Para um dia, quem sabe, venha a merecer
Que me declares ao mundo
Como teu único e real amor
O verdadeiro amor desta vida e de além dela.
Sem que ninguém mais haja entre nós.

Ton Neumann

sábado, 14 de março de 2009

Balada da Sexta Feira de Cinzas

Eu vou tentar juntar os cacos
Do que sobrou de mim
Depois que você disse que ia embora
Que o nosso amor tinha chegado ao fim

Na tua frente eu vou manter a pose
Me fazer de forte
E vou tentar até sorrir
Mas sei que vou me desabar em pranto
Na hora que eu te ver partir

Me diz agora se ainda há razão
Pra eu querer viver
Se de hoje em diante, ao despertar
Quando eu abrir meus olhos
Não vou mais te ver

Me diz se eu tenho ainda algum motivo
Pra sequer acreditar em Deus
Se Deus foi mal com os mortais
Ao permitir que suas bocas pronunciassem a palavra adeus

Saiba que eu tenho a consciência
Que não partes tu, também, sem sentir dor
Mas também saiba que maior que a de quem parte
É de quem perde o seu amor

Eu te dispenso da elegância
De dizer o quanto que desejas
Que eu seja feliz
E pode ter certeza
Que ninguém jamais irá querer-te
Como eu já te quis

Ouvi dizer que existe um amanhã
Mas já nem sei se creio mais
De qualquer forma
Nem que seja pra outra vez sofrer
Deste amanhã eu vou atrás

E a cada novo dia
Se preciso eu gasto
Até a última gota de meu sangue
Para descobrir
Alguma forma de poder
De novo te trazer para mim
De voltar pra ti


Ton Neumann

sexta-feira, 13 de março de 2009

Declaração de Renúncia

Desprezo o dom da poesia
Renuncio a essa maldita sina
Que só conduz à dor.

É uma falsa luz que cria esperanças no coração do poeta
E depois o mergulha na escuridão da perda, da dor
Na solidão mais terrível
Que é a de quem se percebe sem par no mundo.

Para que ser poeta?
Para que poesia?
Para que acreditar na mentira do amor?
Para que ilusão?

O mundo não é dos fortes?
Poetas são seres tolos e fracos.

Declaro, aqui
Minha renúcia à poesia
Minha decrença no amor.

Ton Neumann

quinta-feira, 12 de março de 2009

Fora, Poeta

Sinto muito, senhorita.
Dispensei o poeta.

Espero que não se zangue.

Hoje vim pessoalmente
Dizer que te amo.

Ton Neumann

quarta-feira, 11 de março de 2009

Sobre Sonho e Realidade

Quando chegaste
Vi nascer um sonho
E me apaixonei por ti.

Aos poucos, no entanto, em movimentos sutis
Foste renovando as formas e os sentimentos
E viraste realidade.

E é pelo de real que és
E pelo de real que trazes em minha vida
Que te amo cada dia mais
E que descobri o quanto viver é realmente melhor que sonhar
E o quanto,
Quando transformamos o sonho em realidade,
Os dois sentidos se fundem.

Aliás, nenhum adjetivo
Te poderia ser mais preciso: real
Minha rainha.

Ton Neumann

terça-feira, 10 de março de 2009

Sobre o Nosso Mundo

Vivemos em uma dimensão paralela,
Alheia, incompreensível a todo quem que não nós.

Muitas vezes, transitamos pelos espaços do mundo, que aos outros foi reservado,
Apenas pela delicadeza de aspergir o perfume de nosso amor,
Por generosos que somos,
De forma a lhes ofertar alguma graça às jornadas
Tornado menos árdua sua tarefa de não viver como vivemos nós.

E fazemos isso,
Sem que de fato nos façamos perceber pelas gentes
Que vagueiam pelas ruas em busca do pão de cada dia
Enquanto eu e tu, encantados pelo amor, que somos,
Não precisamos mais deitar lida em função desses lavores
Pois já não trazemos mais essas necessidades tão de ser vivente que caracterizam os humanos.
Vivemos em outro plano e nossas necessidades são apenas as que dizem respeito ao amor.

Ao deleitar-se do que transborda a cornucópia que nosso fundir abrolha
Nos nutrimos da energia que nossos calores produzem
Da força inexplicável que um corpo ao outro transmite
Desse delírio de passar dias a se amar
Desse espetáculo interminável do qual somos protagonistas
Que vara noites, madrugada a fora
Entre o saciar e o despertar de novos desejos
Coreografados por um balé insano
Dando razão aos sentidos
Nos mostrando o quanto estávamos enganados
Quando dizíamos já ter amado, um antes do outro.

Não é possível que queiramos que alguém nos venha a entender
Nem tampouco é tão assim cristão
Falar aos outros de algo a que ninguém mais foi permitido conhecer.

Apenas a nós dois foi permitido provar dessa droga,
Fruto da perfeita e única combinação gerada pelo que somos
Pelo que produzimos um no outro.

E é inebriados desse algo
A que qualquer definição não cabe
Que desde que nos fomos
Foliamos vida a fora
Evoluindo, como que encantados,
Por entre os sóis e as luas
No transe desse delírio
Que o amor nos traz
E que é nossa forma de comunicação
Para com o mundo contatar
A ele se nos traduzindo
Sob forma de poesia.

Ton Neumann

Sobre a Saudade

Me mandas beijos na alma e me chamas de querido
Então, tu bem sabes, me derreto todo ao recebê-los
E ao ouvir essa palavra da tua boca
Enquanto me descreves planos de viagem, ao telefone,
Para quando setembro chegar
E o vento frio novamente começar a anunciar o outono.

Do lado de cá eu rio
E imagino tua cara enquanto me falas isso
Nesses momentos em que tua meninice se põe
A me deixar recados subliminares
Para que eu entenda que me amas
Sem contudo se valer de explicitude,
Mantendo assim a fantasia
Que desta forma não te entregas toda de uma só vez
Como se ainda houvesse mistérios a desvendar sobre teus sentimentos
Ou mesmo eu os desejasse.

E por tudo isso e ainda mais por outras coisas que sequer supões
- Entretida que vives a caçar histórias de aspecto tão pungente quanto efêmero, nesse mundo midiático que é o teu-
Eu te amo cada dia mais
Até mesmo com certa culpa,
Pelo tanto que esse transbordar de vida
Que teus poros não conseguem conter
Me alimenta a alma e me dá sentido aos dias
Que eram tão amargos e sem esperança até que
A vida nos colocou frente a frente naquela beira de mar.

Mas por mais que adore que me beijes a alma,
Minha falta hoje é de tua boca
Minha falta hoje é de tua carne
De nosso enlaçar de pernas
Do trançar das línguas em nossas bocas
Do possuir de nossos corpos
Com um afã que nos confunde identidade e
Embaralha os sentidos e as emoções
Nessa total sinestesia contraditória que conduz
À soberba do possuir e à entrega total do se dar.

O desfalecer de depois do amor
O acordar para amar ainda mais
A perda total da noção dos conceitos mais básicos que se convencionou para entender o mundo ou as leis da natureza
A divisão da semana em dias ou desses em descer do sol ou subir da lua
Ou do contrário que seja

Que diferença pode fazer qualquer coisa que se passe no mundo
Quando estamos a nos amar?
O que pode ser mais supremo do que teu gosto em minha boca
Ou me beberes a essência?
Que outro sentido ou sabor que me encante
Pode me ter a vida reservado depois de ter penetrado teu corpo?

Amada minha
Mar profundo de beleza incontestável
Imensidão por onde me espalho
A beber da inesgotável fonte de inspiração que me és
E que me permite a continuidade do viver
Para que, cada vez mais, possa cumprir minha sina de transmutar
Amor em palavras e essas em vida
De escrever sobre ti
Mulher da minha vida.

Vem agora e me toma por todo
Me abraça, como jamais antes
Fala que me ama
E me recebe dentro de ti

Pois é na tua carne que te entrego a alma
E é só por me permitir perdê-la em ti
Que encontro a tua

Eis, pois, a forma pela qual seguimos pela vida a fora
Sendo a prova mais inconteste do quão imponderável é o amor.
Ton Neumann

segunda-feira, 9 de março de 2009

Sobre o teu Silêncio

Nada em ti fala mais completamente
Ou é mais eloqüente sobre tua dor
Que teu silêncio

E como amante incondicional, teu, que sou
Me ponho a fazer versos que te sirvam de ouvido
Para que possas usar as não palavras
Com que desabafas essa imensidão de medos
Que povoa tuas fantasias
Ao te ver transfigurada em minha poesia.

Como quem me pede ajuda me mandando embora
Como essa criança assustada com o amor que me tens
Como quem não sabe lidar com todo o amor que te dou
Com o que de fato somos.

E então não gritas
Nesse desesperado e sonoro pedido de socorro que o teu silêncio traduz
E eu te ecôo a derramar palavras em papeís em branco
Indicando o porto seguro de meu coração
E a proteção que meu amor oferece a todos os males que a vida te fez
A todas cicatrizes e inseguranças que trazes contigo
Antecipando antídotos de fuga
Em doses hoemeopoéticas

E aí mais tarde
Quando leres o que desejavas
Voltarás correndo para mim a praguejar contra a saudade
E a paz se fará de novo em teu coração.

Sinto muito, meu amor
Pior do que se apaixonar por um poeta
É se apaixonar por um que te ama verdadeiramente.

Ton Neumann

quinta-feira, 5 de março de 2009

Recado ao meu Amor

Foi como o sol que invade a janela casa a dentro.
Assim entraste em minha vida
Trazendo luz aos meus dias
E me tirando da escuridão profunda
Que caracterizava meu coração.

Onde havia tristeza, hoje há alegria.
Onde havia dor, prazer.
Onde havia mágoa, fluidez do sentir.
Onde havia raiva, coração aberto ao que a vida pode nos dar de melhor.

Dizes que faço o mesmo por ti.
Como podes, então, pensar em me deixar?

Não entendeste ainda que somos um do outro
Que nos aguardamos pela vida inteira,
Que tudo o que nos sucedeu aos corações até então foi preparação
Para que, de fato, entrássemos nas portas da felicidade juntos?

Minha linda, minha criança, meu doce.
Não faça mais esforços vãos,
Não tente mais fugir de mim.

Sempre que tua cabecinha de vento tentar
Teu coração que me ama vai te trazer de volta
E o meu estará aberto para que voltes para teu verdadeiro lar: meu peito

Guarde essa energia que gastas tentando fugir de mim
Para fazermos amor.
Não é bem mais gostoso assim?

Ton Neumann

Cantiga por Tanto Amor que nos Temos

(Letra de canção, melodia já composta)

E eu te queria assim
E eu te encontrei assim

Linda como a lua, sob a bruma
Tu chegaste, eras o sol
Na lua cheia, sobre a terra
E eu não sabia, que podia
Ter tua trança, teus cabelos
Nos meus veios, nos meus rios
O meu calor sobre os meus seios
Te abraçar e rir

E eu te queria assim
E eu te encontrei assim

E eu nem sabia, como eras
Que existia, alguém igual
Ao meu amor, e a liberdade
Do querer, se já rompemos
Os grilhões, tantos milhões
De preconceitos, do passado
Os nossos peitos, não precisam
De certezas, de futuros

E eu te queria assim
E eu te encontrei assim

E então eu vi que
No meu sonho, já existia
O teu sonho, era daí
A luz que eu via, eram teus olhos
E os desejos, por meus braços
Por meus beijos, como um mar
Eu desejava te engolir
Fugir do frio
Na tua boca de verão

E eu te queria assim
E tu vieste assim
E eu te amo assim
Tudo que eu quero assim
E eu te desejo assim
Bem como és
É assim


Ton Neumann

segunda-feira, 2 de março de 2009

Porque Assim És

Em todo algo que a vida me agracia permitir a ver
Vejo tua cara,
Teu sorriso, meu amor

Tu ris, não acreditas
Dizes que eu falo essas coisas para te impressionar
Que não existe amor como o que eu te digo sentir

Então calo,
Rio eu, agora sem que percebas
E silencio a te ver transitar pelos dias
Esbanjando o tudo que és.
Pois se meu amor não te toca
O que mais há de te tocar na vida?
O que mais há de tocar qualquer vivente?

Qual a poção capaz de te fazer te trazer para mim
Além da única que sei preparar nessa alquimia de letras
Que transfiguram o que chamo minha poesia,
Além de todas as declarações que te faço com meu poetar?

Saiba que nada busco em ti
Pois nada mais me restou buscar
Sobre as coisas do amor
Desde que te vi pela primeira vez
Derramando poesia por entre as gentes
Causando inveja às outras mulheres
Roubando a paz dos homens
Derrubando crenças
Desmoralizando lendas

Depois de ti não procuro mais nada
Porque naquilo que és encontro tudo quanto sempre desejei para ser feliz
Minha Meca, Shangrilá.

Criança linda vestida em corpo de mulher
Deusa traquina,
Que se ri a debochar do encantamento que nos causa
Sem qualquer esforço
Imagem mais linda que uma retina pode guardar...
Última chance que me resta para ser feliz
Musa suprema de tudo que eu ainda venha a compor
Elo mais forte entre o sagrado e o profano
Conexão perfeita entre carne e espírito
Maior sentido de tudo que possa me fazer sentido

Sou teu.

Ton Neumann

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Poema Sobre o Momento de Meu Partir

Fantasio, em meu delírio,
Que as malas que me esperam
Na porta de saída de teu apartamento.
Trazem o mesmo nó na garganta
Que me sufoca a ponto de se me tornar difícil até mesmo respirar,
Nesse momento.

Surge, porém, em meu socorro
Sem que consiga definir de onde
Uma força que não posso conceituar (nem mesmo posso dizer se não me machuca ainda mais)
Que me ajuda a segurar o choro.

Te abraço, desviando o olhar
Pois não suportaria ver ainda mais tristeza do que a que já sinto
E te aperto ao mesmo tempo que também te sinto me apertar, com toda a força que tenho
Esmagando teus seios contra meu peito,
Unindo nossos plexos
Comprimindo nosso sexo
Fundindo nossa ânima
Desta feita, tão necessitada de animar-se.

A saudade, já aguda e antecipada,
Desafia nosso propósito de ignorar o amanhã
E nos pomos a jurar promessas de um estar novamente em conjunção
Mais breve do que esse aperto no peito nos mate.

Um pranto convulso, então, se apodera de mim
Tornando inútil todo o esforço anterior
Encharcando minha cara
Revelando o quanto não sou forte, como desejava que supusesses
E o quanto necessito de ti e desse amor

Há muitas coisas que preciso que me digas antes de eu voltar
Há muitas coisas que espero de ti,
E tu de mim outras tantas,
Ainda que cedas ao vício de negar o quanto também tens expectativas sobre mim
Alimentando a fantasia que nutre essa identidade que criaste para te proteger do amor.

Há muito ainda o que retirar de nosso caminho,
Muita terra a ser arada, muita pedra a ser removida
Antes de te dar a posse definitiva sobre o destino dos meus dias
Antes que digas que sou teu senhor e marido
Antes que te dê sentido ao ventre

Há muita esperança em meu coração de que meus sonhos também venham a ser os teus
E que antes que eu possa crer
Entres tu, porta a dentro em minha casa, a reclamar propriedade de meu porvir

Mas nada disso acalma a dor que o meu coração sente ao te deixar, querida
Embora tenha ciência do quanto essa partida não é definitiva
Embora não estejamos tão longe que nossas posses não permitam que nos vejamos com mais freqüência,
Embora eu te leve dentro de meu peito e saiba que meu cheiro aqui continuará a perfumar teus dias
Embora não desconheça o fato de que me buscarás em meus poemas virtuais como também na cama, a cada noite
E que uma lágrima cairá de teus olhos a cada manhã que ao abri-los não enxergares minha boca a sorrir e te dizer: bom dia minha criança, meu amor.

Embora eu saiba que dessas e de tantas outras formas permaneceremos juntos,
Ainda assim, cada dia sem ti significará um a menos de felicidade
Cada noite sem estar dentro de ti
Será uma triste e interminável ladainha em louvor à solidão
Como fosse eu um menino perdido,
Esquecido dentro de uma catedral vazia
Assustado com as imagens que o rodeiam enquanto caminha
Rumo ao nada, em busca de uma saída
Que sabe que não encontrará por si

E és tu quem tem a chave dessa porta, meu amor
Só tu podes abri-la e me libertar da pena suprema
De viver sem ti.

Não seria nada justo, depois da verdadeira benção que foi te ter em meus braços
Ser amaldiçoado a cambalear pela vida a fora,
Apenado a rolar como um trapo, como um morto em vida
Sem teu amor a me nutrir.

Eu lançaria pedras à desgraçada Moira
Que me tecesse tal teia
Eu enfrentaria Deus, se me fizesse tal desfeita,
Mostrando a ele ou a quem quer que fosse o que sou capaz para não te perder.

Te solto dos meus braços
Tua blusa ainda molhada
Beijo uma última vez teus lábios e saio sem te dizer nada ou olhar para trás

A cabeça erguida aponta para a certeza do amanhã de felicidade que nos espera
Que nos aguarda para que juntos o venhamos a construir.
E é por isso que tão breve voltarei para teus braços,
Minha criança,
Meu amor.

Ton Neumann

O Ciúme

O sol arde, inclemente aos que a ele se submetem
Nenhuma folha se move
Nenhuma brisa farfalha entre as árvores;
Nenhum latido ou barulho de qualquer outro animal.
Nenhum sussurro de prece
Nenhum suspiro de saudade
Nenhum tórrido gemer de amantes
Nenhum soluço de dor
Nenhuma gargalhada de embriaguês
Paira no ar apenas um silêncio traiçoeiro
Somente o cheiro da morte, de alguma forma que não permite descrição,
Desafia o indescritível da tensão desse momento,
Tão presente quanto inexplicável

Como se saída do nada, sem que se perceba de onde,
Vara o ar a flecha do ciúme e atinge em cheio o coração do poeta
Antes mesmo que perceba o que de fato está a acontecer
Alarma-lhe o barulho seco do projétil ao adentrar seu corpo
Por um instante, a sensação de surpresa é substituída pela dormência.
Ele olha para os lados tentando identificar de onde lhe foi desferido o golpe
Seu corpo gira sem qualquer referência e o mundo todo em volta de si
Um misto de náusea e boca seca tomam-no por completo
A cabeça dói, lateja, como que presenciado à distância o que está acontecendo,
Mas sem poder intervir em nada.
Então o veneno da flecha mostra ao que veio
E lhe submete a um tipo de ardência desconhecida, corrosiva, justo em seu coração
O sangue molha o peito e sua dor se confunde com a vergonha que o novo e indesejado sentimento proporcionam.

Como revelar a mulher amada uma sua face tão mesquinha¿
Como correr o risco de decepcioná-la¿
Como revelar-se fraco, ainda que sejam os humanos fracos,
A quem te supõe herói¿
A que te vê como a El Condor
Voando acima da miséria do que é comum aos mortais
Como revelar a pobreza de minha alma que se corrói
Ao encontrar marcas de teu ex-amor ela casa a fora¿
Como conter o ímpeto de te implorar que as apagues pois nenhum outro te merece mais que eu
E que depois do que meu corpo fez com o teu
Nenhum sinal é digno de estar em teu caminho
De desviar tua atenção
Sobre aquilo que desejo que te seja supremo: meu amor
Como suprema és para mim.

Como ter cara de usar a poesia para te revelar que há motivos para que deixes de me querer¿

Calo, agora, à espera do veredicto que sei que nesse momento teu coração processa
Mas não me furto de revelar o que o meu fala:
Tenho ciúmes, sim.
Não me orgulho dele
Mas fui por ele abatido e não posso mais esconder de isso de ti
Resta-me uma ponta de esperança,
Não pelo pequeno que sinto,
Mas pelo grande que és
De que meu ciúme, para ti, possa vir a ser
Mais uma das tantas provas de amor que tenho
Ainda que por tão sombria senda,
A teu coração, oferecer.
Ton Neumann

O Dom

A poesia nada mais é
Do que esse dom que recebi
De conseguir revelar,
Através da palavra,
O quanto cada momento aparentemente prosaico
Resguarda em si um ato de celebração à vida

Ton Neumann

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Presente Matutino

(para você, doce criança)
Amanhã?
Não consigo entender exatamente sobre o que falas.
Ontem?
Também desconheço o significado dessa palavra.
Meu único referencial de tempo se chama presente.
Por que nele posso te amar
Por que ele te designa
Por ser ele o leito onde durmo e acordo contigo
O leito por onde corre o caudaloso rio do nosso amor
A estrada que conduz meus passos ao paço do teu coração.
O espaço que tenho (que idiotas os físicos que dizem não ter, o tempo, espaço)
Para escrever todos os poemas de amor
Que um homem possa escrever e deixar em furtivos espaços
Para que a mulher amada se surpreenda ao encontrá-los no amanhecer
Quando buscava apenas
Escolher com qual dos outros presentes haveria de brincar naquele dia.
O presente maior ao poeta
É te ter em sua vida, mulher
E como um vassalo apaixonado por sua senhora
Cumprir a doce obrigação de te encantar
Com um novo poema a cada manhã.

Esse amor nos nutre.
A poesia nos nutre,
Como também ao nosso amor.
Assim cevamos a vida.
Sendo, do outro, presente.
Em todas as suas acepções.

Ton Neumann

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Quixote

Essa, mais que nunca, é para você, meu doce.
Aos que lêem, de fora, essa declaração devem pensar: Que coisa mais meladinha. Isso, exatamente isso. Meladinha. E muito mais. E nós sabemos o porquê. Especialmente eu sei o quanto tens adoçado minha vida e o quanto tenho sido feliz desde o dia que entraste porta a dentro em minhas terras e te instalastes com fumos de conquistadora. Rendido, desde então estou, pois. Minha doce conquistadora.
(Letra de canção, melodia já composta)

Cavaleiro andante
De destino errante
Que em lutas nos campos de guerra do amor
Perdeu tantas batalhas

Descobrindo outras trilhas
Renascendo das cinzas
É comum, pra quem luta nos campos de guerra do amor
Cicatrizes, feridas

O meu mundo uma noite
E eu pro mundo um dia
É comum, para quem perdeu lutas nos campos de guerra do amor
Uma falsa alegria

Mas me deu, tua verdade
A vontade e a certeza
De querer novas lutas nos campos de guerra do amor
E é por isso princesa

Que aqui vim pra buscar-te
Pois tu tens o segredo
De levar-me de novo, pras lutas nos campos de guerra do amor
Sem angústias sem medo

Deixo as bruxas, dragões
E os moinhos pra trás
Pois tu és, para mim, nessas lutas dos campos de guerra do amor
Meu tratado de paz


Ton Neumann

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Ilusão

(Letra de canção, melodia já composta)

Eras a minha menina
A minha alegria
O meu bem querer

Eras a minha verdade
A felicidade com a qual
Desde sempre eu sonhei

Eras a minha canção
Eras cada batida
Do meu coração

Eras o meu dedilhado
Eras o sincopado
Do meu violão

Pena eu não ter perguntado
Mais cedo teu nome,
Ilusão

Partiste em pedaços meus sonhos
No exato instante que me revelaste
O orgulho que um dia haverias de ter
Quando contasses pro mundo
Teres sido alguém
Que eu um dia amei

Falaste o que sempre se fala
Quando quer se ir embora sem o outro magoar
Calei, como perdem a fala
Os que amam e vêem
Um novo amor
Seu amor procurar


Ton Neumann

domingo, 15 de fevereiro de 2009

A Espera de Ti

(Letra de Canção, melodia já composta)

Quando partiste
Partiste também a mim
Como um cristal
Despedacei-me com o fim

Deste amor
Que pra mim era tudo
Definhei, quis morrer
Pra te amar ainda mais do outro mundo

Tu não sabes
Nunca sabe o que parte
Que ao deixar seu amor
Leva dele uma parte

E hoje há
Uma parte de mim
Que carregas contigo
Desde a hora do fim

Vivo do vício
De trapacear minha dor
Desse delírio
De reaver teu amor

E até lá
Só te peço, enfim
Cuida bem dessa parte
Que levaste de mim

E quem sabe
Em um mundo real
Se consiga o milagre
De colar-se o cristal

És o mago
Que possui tal poder
Me devolve, querido
A razão de viver

Eis-me aqui
A espera de ti

Ton Neumann

Acordado

Estou acordado. Muito acordado...

Prefiro ficar acordado. Assim posso sonhar contigo o tempo todo.

Ton Neumann

O Fogo do Amor

(Letra de Canção, melodia já composta)


Ah,
O Fogo do amor me queima
Me arde, maltrata e teima
Em não querer se apagar

Quem
Conhece a dor da saudade
Sonha em a felicidade
Vir há um dia reencontrar

O amor
Faz nossos dias mais claros
Os sentimentos mais raros
Nos reanima a sonhar

E sonho
Que um dia voltes pra casa
Tua casa que é meu corpo
Esse corpo que é teu lar

Vivo
Somente pela esperança
Que deixes de ser lembrança
E voltes a me habitar

Por mais
Que o tempo tenha passado
E a vida nos afastado
Eu continuo a te amar

Ton Neumann

Vale a Canção

Queria tanto
Se ainda desse
Se permitissem, as cicatrizes
Se perdoassem nossas lembranças
Tanto lembrar
Momentos bons
Revoluções
Tantas manhãs
A se abraçar

Queria tanto
Se ainda posso
E até quem sabe
Posso poder
Então dizer
Ao teu presente
Que esse passado
Que hoje evoco
Não guarda marcas
Nem restrições

Não são somente
Meros momentos
Copos virados
Corpos sedentos
Valium, cerveja
Maria Juana
E carnaval

Também cultiva
Roupas no armário
Marcas no corpo
Ausência n’alma
Falta de calma
Sobra perdão
Vale a canção
Teu beijo, língua
Jabuticaba, crianças negras
A tua boca,
Meu coração

Ton Neumann

Balada pelos Sonhos do meu Amor

Tu nem sonhas, meu amor
Mas enquanto dormes, longe de mim
Sonho por ti, acordado,
Por nós, sonho,
Nosso sonho,
Nosso amor.

Tu sequer me vias e eu já te amava
Sequer sabias que existia meu amor por ti
E eu já conhecia cada sinal de tua respiração.
Em cada timbre de tua voz
Eu reconhecia um mistério contido

Como um viciado,
Meus pensamentos já não mais conheciam outros caminhos
Que não os que conduzissem a ti.

Como um oráculo
Que previa algúrios para esse amor,
Adivinhava os desejos
Que cevavas, sem saber, por mim
E te alertava sobre as vicissitudes que as tardes te trariam

E assim a cada dia desde que te vi
Eu estendi um tapete de flores
Por onde havias de passar
E em meio a elas depositei meu coração

Tu, no entanto, senhora que és
Suprema sacerdotisa de meu credo
Não o pisaste, ao contrário
O tomaste em mão e o colocaste dentro de teu peito

Por isso desde então sou teu
Por isso desde então te dei minha vida
E reneguei qualquer plano que para ela tivesse
Quem ma deu

Como um herege,
Um filho ingrato,
Como o insolente, que de fato sou
Como um traidor que renega sua raça
Pelo amor da mulher
Filha do inimigo de sua gente
Mas que nem por isso se sente traidor
Uma vez que o fez que ao que chamam traição
Eu dou o nome de amor

Escrevo versos pelas madrugadas
Não raro, debruçado neles
Sou eu quem desperta o sol
Meu ofício se resume em semear versos
Por jardins onde florescem fusas e colcheias
Posso olhar olho no olho a cara das pessoas,
Tenho teto e o que comer

Sou capaz de entender o sofrimento alheio
E meu coração não se permite reservar espaços para a maldade
Nunca pisei em ninguém
Luto por um mundo sem fome e com menos dor

Teu útero, sei
Há de ser terra a brotar minhas sementes
Hoje, te tenho em minha vida.

Tu, que só agora entendo,
És de fato a poesia.

Que para mim é o tudo
E por si só me basta.

Ton Neumann

sábado, 14 de fevereiro de 2009

PROPOSTA

Nas calçadas em que andas
Mancha o chão a poesia
Quando andas pelas ruas
Ganham mais cores os dias
Tolo, o sol se assanha
E mais luz'inda irradia
A lua até já me disse
Sentir certo desconforto
Quando tu sais pelas ruas
Esbanjando essa alegria
Que desconcerta nós outros
A quem só restam suspiros
E o sonhar em ter-te um dia

Se o mar pisas, distraída,
Até as ondas silenciam
E espalha-se a boa nova
Entre os seus habitantes
Que a rainha do tempo
Acabou de ali estar

E assim por todo o lugar
Em que venhas a passar
Provocas um rebuliço
Tão grande e tão intenso
Que por vezes até penso
Como a té hoje a polícia
Ainda não te proibiu
De pelas ruas andar?

E é pra evitar mais problemas
Que te venham molestar
Que escrevi esses versos
Bobinhos, quase dispersos,
Nessa forma de canção
Pra perguntar se não queres
Pro resto de nossas vidas
Morar no meu coração.

Ton Neumann

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Estranho Doce

Estranhas mesmo,
Essas coisas do amor.
Misteriosas;
Vontadeiras;
Poderosas;
Prepotentes.

Não reconhecem preceitos
Desacatam preconceitos
Tornam inúteis os planos
Jogam por terra o que em anos
Sedimentou nossas crenças
Reconciliam diferenças
Do ateu fazem cristão
Do crente, um crente em nada
Da manhã, fazem madrugada
Pois é nela que os amantes
Vivem, revivem, refazem
Os seus melhores instantes

Dos tolos, fazem poetas
Dos mais fortes homens frágeis
Dos meninos generais
Dos filhos, às vezes pais
Da paz guerra e dela paz

Da vida um novo início
Um saudável novo vício
De um corpo ao outro ter
De um, vida ao outro dar
E então dessas duas vidas
Ainda outras gerar

As coisas do amor só ouvem
O que diz o coração
Fazem troça da razão
E aos pobres matemáticos
Tratam-nos como lunáticos
Como assim, sem mais pudores
Tratam todos pensadores
Homens de qualquer ciência
Qualquer outra referência
Religião, filosofia
Que não se dêem a entender
Que apenas a poesia
É a linguagem que consegue
O coração entender

Misterioso o tal do amor
Saboroso o tal do amor

Tem cheiro de maresia
Gosto de beijo molhado
Em meio a corpo suado
Por se dar a noite a fora
Até o amanhecer

Faz o azul aparecer
No meio de uma borrasca
Mar bravio, sereno lago
De um bramido um afago
O amor é mesmo um poeta
Um criador sem barreiras,
Um guri bem sem maneiras
Uma fêmea a se ajeitar
Pra seu macho receber
Sentir seu corpo tremer
A lua se aproximar
O calor do sol arder
Dentro de si e seus nervos
Retesarem, quase doerem
Uma dor que ela deseja
Que não acabe jamais
Numa profusão de ais
De gritos insanos
Gemidos
Fuga do corpo
E no corpo
Daquele que lhe possui
Encontrar a própria alma
Enlouquecer até a calma
Mais serena encontrar
Até sentir o seu homem
Nesse também se entregar
Viver a pequena morte
Que experimenta no instante
Que está a se derramar

O amor é como beber
Todo o mar em um só trago
Querer ser todo o outro
E o outro ter no seu ser

O amor quando fala em ter
Não fala em pertencimento
Muito mais fala em momento
Mas um tipo de momento
Que não se marca em relógio
É um louco sentimento
Que mais torna senhorio
O que mais se der ao outro
E que faz do mais gentil
Quem mais se pretende agraciar
Com todas a s gentilezas
Capazes de se gerar

O amor quando é verdadeiro
Não precisa de papéis.
O coração de quem ama
Entrega-se bem faceiro
A esse novo posseiro
Que a ele veio tomar
Pois entende que entregar-se
É a maior das vitórias
A mais linda das histórias
Que pode vir a contar

O amor é um doce estranho
De cheiros incomparáveis
Só decifrável, de fato
A quem partir do suposto
Que só está preparado
Para provar de tal gosto
Aquele que se liberte
Da sina de decifrar
E tenha a alma aberta
Pra somente saborear

O amor é escrever
Um poema como esse
E entregá-lo a sua amada
Como em um ato prosaico
Que ainda que saboroso,
Despido de rituais
Avesso a solenidades
Como um vestir de sapatos
Um banho em um ribeirão
Um pão saindo do forno
Como mogango com leite
Ou qualquer outro deleite
Que por diário que seja
Assim não mais se perceba

Como quem toma em seus braços
A criatura amada
E sem um dizer de mais nada
Fitando fundo seus olhos
Lhe despe roupa por roupa
Como quem lhe rouba o sono
Como quem lhe morde a boca
Como quem tem o poder
De confundir-lhe o andar
Em meio a tanta incerteza
Que tanta certeza traz
Como quem lhe assombra a vida
Como quem lhe tira a paz
E com a cara mais deslavada
Consciente e inconseqüente
Diz que só a devolverá
Se aceitar esse convite
Em forma de poesia
Que comecei a compor
Com a lua’inda em meio céu
E acabo ao raiar do dia
De por todas as outras noites
Que a vida ainda me reservar
Antes que eu tenha que ir
Pra onde vão os poetas
Na hora de seu partir
Em minha cama, senhora
Comigo vier dormir.

Ton Neumann

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

PRA TE DESCOBRIR

Uma canção que fiz há muito tempo e que agora ganhou seu verdadeiro sentido.

Tudo quanto eu possa
Vou fazer por ti
Pra encontrar teus sonhos
Pra te descobrir
Pra te dar meu corpo
E depois dormir

Se eu beijar tua boca
E você sentir
É que algo, entre nós
Há de ainda existir
O que é que te falta
Pra me descobrir?

E não me olhe com os olhos
De quem não gosta de mim
Não te engana a ti mesma
Pra que sofrer tanto assim?

Se eu não sou tudo o que queres
Sou quem te ama
E tu amas,
Enfim

Vê se então me liga
Se me dá atenção
Não despreze assim
Quem te tem paixão
Eu queria tanto
Ser tua ilusão


Ser teu carnaval
Ser o teu por vir
Chega de chorar
Antes de dormir
Fica do meu lado
Nem pensa em partir

E não me olhe com os olhos
De quem não gosta de mim
Não te engana a ti mesma
Pra que sofrer tanto assim?

Se eu não sou tudo o que queres
Sou quem te ama
E tu amas,
Enfim

Ton Neumann

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Roccaille

Cara de anjo

Casa de rocha

Claro sinal

Luz compartida

Pernas de sonho

Boca de mar

Boca de amar

Sorriso de rio

Colo macio

E essa fêmea no cio

A se me entregar

Por todas suas águas, senhora

Desejo meu barco singrar

Marujo que eu sou

Tão sem hora, sem pressa

De velas subir

Âncoras levantar

Quem disse que um Porto Seguro

Não guarda segredos, mistérios¿

Quem disse que um cais

Mesmo feito de pedras

Não tem a leveza capaz de fazer um corsário

No céu flutuar¿

Minha menina de rocha

Onomatopéica criança

Mulher em forma de graça

Tez de textura mais rara

Beijo na boca roubado

Desejo silenciado

Motivo para mas um dia

Razão para a poesia

Ton Neumann

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Eu sei que o Dia Internacional da Mulher é só 08 de março. Mas como já estamos com a campanha pubilitária na rua, resolvi colocar o texto que escrevi para o dia aqui. Espero que gostem. Apesar de ter o caráter de ser uma peça publicitária, escrevi de coração.

Por Vós
Não apenas por que de uma de vós eu vim
E para os braços de outra corro em desesperado amor
Não por que sois meu ponto de partida e porto seguro de minha chegada
Não por que com algumas de vós ri todos os risos da alegria
E todos os prantos da mágoa do amor perdido por outras chorei

Mas, mais e, sobretudo
Por que vossa linhagem é superior
Tanto que o próprio Deus se fez homem para nascer do ventre de uma de vós...

Mulher,
Encho minha boca para dizer teu nome
E rejubilo de alegria ao te fazer musa de meu ofício
Ao merecer teu sorriso,
Tua atenção e carinho por onde quer que eu haja de passar
Pois nobre é teu coração e grandes são as dádivas que tens a oferecer

Se te dedicaram um dia internacional
Te dedico o que me há de mais caro
Meu amor, minha vida inteira
O fazer de meus versos
Mulher,
A ti dedico minha poesia
O que, certamente, é o que mais visceral de mim pode falar do amor
Tu, que em um só ser, reúne todas as suas nuanças...

Ton Neumann
Escrevi esse artigo no final de 2008 e ainda não o havia postado.

Agora postei. Aí está.

Em 2009, muitos vão chorar;
outros vão vender lenços.

Que me perdoem a forma pouco polida (afinal de contas, não passo de um descendente de alemães judeus e italianos, cujo apego pelos rapapés foi forjado na geada e no minuano dos pampas gaúchos – sei que a mistura é mesmo explosiva), mas estou de saco cheio de ouvir falar dessa coisa de crise em 2009.

Outro dia, em evento público, acabei por desferir (sim, a expressão é exatamente essa) a frase dá título a esse artigo. Fui ovacionado por uns e atomatado por outros. Os que me aplaudiram, imagino que tenham saído dali correndo atrás dos metafóricos lenços que pretendem comercializar; os que me torceram os narizes chamaram-me de grosso, mal-educado, insensível, além de outros adjetivos que o carinho que resguardo pela figura materna me impede de trazer à voga. Porém discordo peremptoriamente. Podem me fazer essas acusações por outras atitudes que tenha tomado, não por essa. E a de insensível, sobre essa fecho questão de que, definitivamente, é injusta. Também poupem a pobre velha. Senão, vejamos.

Não criei a crise, não desejei a crise, não alimento a crise e, finalmente, não acredito na crise. Como assim, devem estar se perguntando? Está louco? Como não acredita na crise se ela está aí, derrubando bolsas, trazendo desemprego, gerando férias coletivas não programadas, despencando o valor de commodities? A questão é a seguinte (centremos nossa dialética nos cânones católicos, para melhor exemplificar): Você se confessa? Se a resposta for sim, é por que assume que peca. E por que se considera um pecador, logo acredita em pecado. Portanto precisa fazer algo que o elimine de você, ou arderá no fogo do inferno. Eu não. Não acredito em pecado, logo não peco. Não pecando, não sou pecador. Não sendo pecador, não vou para o inferno, não tenho uma vida atormentada pela culpa. Prefiro investir meu tempo e minha pouca inteligência (não precisam rir, sei que não é lá essas coisas, mas é a que tenho) em orientar minha vida por valores éticos universais, respeito aos com que convivo, apego pela verdade e honestidade nos propósitos, fraternidade com os mais necessitados. Mas e o céu? E o inferno? Não penso neles. São assuntos que não me dizem respeito. Cumpro minhas funções de filho do criador através de ações. Não de ritos.

Deu para perceber o paralelo com a crise? Pecado e crise dizem respeito à postura que temos em relação a eles. E eu não me mixo para nenhum dos dois. Há, sim, temos uma nova ordem econômica vigindo por esses dias? É verdade. E digo mais. Bem vinda essa nova ordem econômica, pois o que ela está fazendo é tirar dinheiro falso do mercado. Isso mesmo, dinheiro falso. Ou há outra explicação mais precisa para operações de sub-prime em cascata? Esse freio de arrumação poderia servir para que se encontrasse o elo perdido entre os marcos regulatórios e a liberdade de mercado. Se isso, de fato vai acontecer, não sei. Para ser honesto, acho que não. E lamento muito por isso. Mas há gente muito poderosa que ganha muito dinheiro com esse sistema onde papel gera dinheiro sem lastro. Assim podem fabricar outras crises e ganhar mais dinheiro de forma espúria com essa criação perversa. E nesse pecado eu acredito. Esse eu repudio.

Mas, voltando ao que a tal crise nos diz respeito diretamente e imbuído de meu lado Rodiney Soares, diria (posso dizer escrevendo, é uma figura de estilo) para distintos que acompanham meu raciocínio -Veja bem: se há quem chore, há quem necessite de lenços. Não há nada de mal em vender lenços, desde que se entenda de fato o que significa isso. Não há dolo ou ausência de ética nisso. O que há, na verdade, é um senso de realismo e oportunidade (sim, não oportunismo) nesse tipo de postura. Quando vendo lenço a quem chora, gero movimento na economia, faço com que costureiras tenham emprego, que o homem do frete receba sua parte, que o dono do posto garanta emprego ao frentista, que a fábrica de tecidos tenha que contratar novas pessoas, que os vendedores de quentinhas tenham mais clientes, que isso tudo chegue ao homem do campo e, finalmente, que possamos oferecer um choro mais confortável aos que estiverem chorando. Por que chorar, sem sequer ter um lenço por perto...ninguém merece. Vai um aí?

O que acredito é que cada empresário, empreendedor, cidadão, enfim, precisa encontrar o seu lenço. As passagens aéreas internacionais subiram 25%? Ótimo para o turismo nacional. Mas as nacionais também subiram 17%? Ótimo para as dezenas de lugares maravilhosos que estão ao alcance de um tanque de gasolina e que não conhecemos. Mas...sabemos que eles existem? As agências de turismo nos informam desses lugares? Ou são simplesmente replicadoras de pacotes formatados por operadoras que oferecem produtos também pela internet? Os donos desses lugares os tratam de forma profissional, ou cada vez que têm possibilidade exploram o turista em vez de explorar o turismo? Ao menos nos informam sobre esses lugares e que eles estão ao nosso alcance? Ora, ninguém perdeu o prazer em viajar, em ter momentos felizes de lazer. O setor precisa se reinventar, criar novas formas de atrair um público que aí está, sequioso por boas ofertas. Se forem ótimas, então, é chupetinha no mel.

Menos carros zero? Oportunidade para lanterneiros e mecânicos. Impossibilidade com gastos de luxo? Oportunidade para setores que trabalham com reformas de tudo; de estofadores a pedreiros. Pouco dinheiro para o mercado de entretenimento? Que tal resgatar pessoas que não têm o costume de assistir a espetáculos viabilizando o preço dos ingressos para esse público e ganhando na escala? Que tal uma parceria com o boteco ao lado do teatro do tipo: compre um ingresso, ganhe um chope e sente ao lado dos atores do espetáculo depois da peça?

Confesso que há alguns produtos meus que estou seguro que venderei como nunca antes (vou livrar-los do “na história desse país”) nesse 2009, a saber. Uma showlestra chamada “Vendedor de Sonhos”, uma outra intitulada “Quando o Atendimento é um Show”, ambas também são apresentadas em formato de palestra (a diferença é que nas Showlestras eu vou desenvolvendo os assuntos cantado, acompanhado de uma banda). Os seminários de Habilidades de Comunicação com Grupos, onde buscamos desenvolver nos participantes, através de técnicas dramáticas, aplicadas a técnicas de apresentação, a competência para apresentar produtos, idéias e serviços com segurança e autonomia, os de Desenvolvimento de Pensamento Criativo e Liderança, isso sem falar nos trabalhos que farei sobre atendimento com foco do cliente, junto a empresas que sabem que o desenvolvimento de seus funcionários é um dos pilares mais importantes na sustentação das empresas que verão oportunidades reais de crescimento e divisão de renda nessa tão falada crise. É isso. Eu tinha um artigo para escrever falando sobre a crise. O fiz e ainda encontrei uma oportunidade para fazer um comercial do meu trabalho. Não vou ficar com os cabisbaixos que estão aí sofrendo pela crise. Nasci para fazer sucesso, ser feliz. Não para andar choromingando pelos cantos. Sou empreendedor. Sou realizador dos meus sonhos e dos sonhos dos outros. Sou vendedor. Aliás, se perguntarem a você quantos vendedores têm em sua empresa e a resposta não for: todos os funcionários, tenho uns lenços aqui para vender.

Em 2009, muitos vão chorar; outros vão vender lenços. Por tudo o que expus acima, eu já decidi de que lado estarei. E você? Já decidiu? Feliz 2009. Se você quiser.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009







Um de meus santos de devoção é esse: São João Ubaldo Ribeiro. Santo Porreta, chagado em água benta curtida no carvalho, traz ensinamentos fantásticos como os que se seguem, para profissionais que vivem daquilo que produzem.

Com a palavra, o Santo.

O Conselheiro Come (I)
Quando eu era estudante em Salvador, tinha sempre um colega ou professor especialista em histórias sobre Ruy Barbosa, a maior parte delas com certeza inventada. Não pode ser verdadeira, por exemplo, a anedota segundo a qual ele chegou a Londres e publicou um anúncio no Times: "Ensina-se inglês aos ingleses". Também não boto muita fé em que ele se distraía arrolando dezenas de sinônimos para "chicote" ou "prostituta", embora até hoje existam muitos conterrâneos meus que se aborrecem com quem desmente essas e outras alegações.
Mas há histórias sobre ele em que acredito. Uma delas, aliás, nem o tem como protagonista, mas, sim, sua mulher. Dizem que, procurado para dar um parecer ou realizar um trabalho qualquer, Ruy Barbosa, como acontece com muitos intelectuais, não costumava puxar o assunto do pagamento. E contam que, depois de ver o marido explorado com freqüência, a mulher dele chamava o visitante para uma conversinha, na saída. Perguntava se tinham acertado alguma remuneração e, como a resposta era quase sempre negativa, ela, delicadamente, pedia ao visitante que voltasse e combinasse um pagamento.
- O conselheiro come... - explicava ela.
Pois é, o conselheiro comia. E eu, apesar de não ser nem conselheiro nem Águia de Haia, também como. Mas creio que há muita gente que acha que escritores, de modo geral, não comem, nem precisam de dinheiro para nada. Como tudo mais, deve ser culpa da imprensa, que costuma falar em escritores de best-sellers internacionais, os quais ganham dois milhões de dólares por mês, papam nove entre cada dez estrelas de cinema e têm vastas coleções de carros e relógios de luxo. A verdade, ai de nós, é que a maior parte dos escritores, não só aqui como no mundo todo, tem que se virar de várias formas para conseguir viver modestamente.
Acho que foi o Paulo Francis que se queixou, já faz algum tempo, do volume de trabalho de graça que aqui esperam dele. Agora me queixo eu. O Brasil, me parece, é campeão nesse tipo de prática. As pessoas esperam que o escritor trabalhe de graça o tempo todo e ficam grandemente ofendidas quando ele se recusa. Há poucos dias, um grupo de estudantes universitários passou para mim a tarefa que lhes tinha sido incumbida pelo seu professor de literatura brasileira e, como eu não concordei em fazer o trabalho por eles, ficaram aborrecidíssimos e só faltaram xingar toda a minha árvore genealógica. Para não falar que, mesmo que eu quisesse fazer o trabalho, não saberia responder a perguntas do tipo "como caracterizar sua inserção no contexto da literatura brasileira pós-moderna".
As encomendas de trabalhos escolares aparecem mais ou menos a cada mês. Já originais de livros para meu exame chegam todos os dias. A impressão que tenho é que a maior parte dos autores deseja que eu largue tudo o que estiver fazendo, leia sofregamente os originais, adore tudo, escreva um prefácio arrebatado e edite o livro - após o que ele passará a ganhar dois milhões de dólares por mês, a papar nove em cada dez estrelas de cinema e, enfim, viver essa vidinha de escritor. E, na verdade, a pessoa não quer uma opinião sincera, como sempre alega. Quer, o que, aliás, é natural, receber a confirmação de seu talento. Mas, se eu fosse ler todos os originais que me surgem, não faria outra coisa na vida. Além disso, tenho muito pudor de dar opinião sobre o trabalho alheio, não me acho qualificado. E fico sem graça e me sentindo culpado porque não posso ler os originais. Não é justo, pois não posso mesmo, mas é o que acontece.
Entrevista é outro trabalho de lascar. Parece-me que a entrevista devia ser destinada a obter informações que ainda não tenham sido tornadas públicas. Por exemplo, todo mundo que já ouviu falar de mim sabe que eu sou baiano e moro no Rio. Contudo, a esmagadora maioria dos entrevistadores começa perguntando onde nasci e se ainda moro em Itaparica. Uma repórter iniciou sua entrevista perguntando se eu era escritor. As perguntas são invariavelmente as mesmas e podiam ser respondidas com uma olhada nos arquivos do jornal ou revista, mas eu tenho de dar a entrevista e, novamente, trabalhar de graça. Não agüento mais contar que livros publiquei, que gosto de escrever de manhã, que aprendi inglês quando era menino, que nasci em Itaparica e passei a infância em Sergipe etc. etc. etc.
No caso da televisão costuma ser pior. Todo mundo que trabalha em televisão, aqui neste país onde ela é das coisas mais importantes que existem, se acha o máximo porque trabalha na televisão. A síndrome de Bozó, do Chico Anysio, assume várias formas. Os seguranças tratam a gente como lixo, devendo dar-se por felicíssima por ter a chance de aparecer na tevê. Para trabalhar de graça, a gente tem de comparecer ao estúdio, identificar-se, botar crachá, ficar esperando e obedecer ordens estranhas, tais como não olhar para a pessoas com quem se está falando, mas para a câmera. Uma vez me fecharam num cubículo durante um tempo interminável e aí, amedrontado, fugi. De vez em quando, alguém fica indignado porque uso óculos e dá reflexo, ou porque sou careca e também dá reflexo, quase me obrigando a pedir desculpas por existir.
O interessante é que, se o camarada é amigo do dono do armazém ou da quitanda, não lhe ocorre pedir para fazer a feira da semana de graça. Afinal, trata-se de um negócio, sobrevive-se daquilo. O escritor e o jornalista também sobrevivem de seu trabalho, mas parece que ninguém acredita nisso. Volta e meia sou levado a crer, pelo jeito imperioso com que freqüentemente me intimam a trabalhar de graça, que acham que recebo um estipêndio do governo para exercer essas funções. Quando, certa feita, aceitei pagamento para escrever e assinar um anúncio, caíram de pau em cima de mim e dos outros que toparam o mesmo serviço, como se tivéssemos vendido nossas santas e puras almas ao diabo. Sei que talvez fizesse muito melhor figura de escritor se vivesse bebum, esmolambado e tomando uns trocados emprestados aqui e ali. Mas, infelizmente, me falta vocação, devo ser um falso escritor, nem milionário nem miserável.

O Conselheiro Come (II)
No relacionamento com o público, escritores e jornalistas não são como atores ou cantores. Estes sentem de pronto, pelo aplauso ou pela vaia, se agradaram ou não. Aqueles só de vez em quando sabem se o que publicaram foi bem recebido pelos leitores, através de uma eventual carta ou encontro casual. Assim mesmo, quando a reação é negativa, as pessoas geralmente evitam revelá-la diretamente. Aplaudir ou vaiar é mais fácil, porque se trata de um comportamento grupal. Já chegar individualmente ao infeliz escrevinhador e jogar-lhe na cara que o que ele cometeu é ruim fica mais difícil.
Creio, contudo, ser uma exceção, pelo menos parcial, porque tenho críticos severos, alguns deles meus amigos, como o taxista Carlão, exemplar profissional do volante que faz ponto no Jardim Botânico. De modo geral, Carlão gosta do que eu escrevo aqui, mas, de vez em quando, sem muita sutileza, mas amistosamente, opina que "aquela do domingo passado estava meio chata", ou me diz que eu devia estar com azia, no dia em que escrevi isso ou aquilo. Um senhor esguio e de porte altivo, geralmente demonstrando estar com umas duas talagadas no juízo, de vez em quando me detém, ao nos toparmos na rua, para apertar minha mão e cumprimentar-me vivamente. Em compensação, há dias, embora raros, em que apenas me acena de longe e grita:
-Olha aí, a de hoje estava uma desgraça! Foi você mesmo que escreveu? Olha o nível, atenção!
Rio amarelo, prometo tentar caprichar na próxima. Raciocino que, se o sujeito gasta seu dinheiro para comprar o jornal, tem o direito de criticar a mercadoria. Que é que vou fazer, quem sai na chuva é para se molhar e, afinal, estamos numa democracia e a livre manifestação da opinião é sagrada. Não vou ser hipócrita e dizer que não gosto de elogio e não me chateio com críticas negativas, mas faço um sincero esforço para me comportar com a elegância possível, tanto num caso quanto no outro.
E, quando uma crônica ou artigo dá, digamos assim, ibope, sinto uma espécie de felicidade secreta, entre as cartas de aprovação, faxes (precisamos resolver esse plural de fax, palavra que o Aurélio ainda não registra; já que sou o caçulinha, vou perguntar aos mais velhos, lá na Academia) entusiásticos, aplausos em botecos e outras demonstrações. E os ibopes mais altos muitas vezes são uma surpresa para mim. Foi o que aconteceu com uma crônica (ou artigo, sei lá; vou também perguntar sobre isso na Academia), publicada há uns dois ou três domingos, em que eu, mencionando a preocupação da mulher do conselheiro Ruy Barbosa com que pagassem pelo trabalho de seu marido, comentava como querem que escritores e similares trabalhem de graça, aqui no Brasil.
Meninos, só vocês vendo. Até hoje chegam mensagens de solidariedade e não somente de escritores e jornalistas, mas de todo tipo de profissional, o que parece indicar que há mais sopeiros e folgados entre nós do que suspeitamos à primeira vista. Jorge Amado, ainda hospitalizado, mandou transmitir calorosas felicitações e afirmou que, doravante, vai enviar minha crônica a todo mundo que lhe pedir para trabalhar de graça - ou seja, algumas centenas, ou milhares, de caras-de-pau. O festejado romancista Antônio Torres me telefonou, para, com a voz embargada de entusiasmo condoreiro, fazer um discurso de aprovação. A bela e também festejada escritora Ana Maria Machado fez a mesma coisa. E mais outros, que os neurônios que já não disparam deletaram (não é assim que se diz, hoje em dia?) da minha pobre memória.
Dois médicos, igualmente indignados, me mandaram cartas, contando como são praticamente forçados a dar consultas grátis. Um deles, cardiologista, deu para variar seus horários de calçadão. Andava de manhãzinha, mas a "clientela" aumentou tanto que ele não podia mais andar, pois tinha de parar a cada minuto, para tomar o pulso de um, receitar um vasodilatador para outro e ouvir sem acreditar um sujeito lhe pedir para levar o estetoscópio e o esfigmomanômetro (medidor de pressão arterial; desculpem o palavrão, mas o Aurélio diz que tensiômetro está em desuso) para a praia, a fim de melhor servir a seus pacientes. O outro não atende mais telefone, porque, na quase totalidade dos casos, do outro lado da linha está um consulente aflito, querendo só o nome de um remedinho para o pâncreas, ou para o fígado, ou para frieira no dedão.
Um pintor, que preferiu não se identificar, disse por fax que não agüenta mais os pedidos de quadros de presente, com promessas de pendurá-los em local de destaque. Também se queixou de que vivem lhe mandando listas de presentes de casamento em que se comunica que se espera dele um ou dois quadros. Chico Simões, o filosófico (escola estóico-pragmática) proprietário lusitano do celebrado boteco Tio Sam - onde o general Figueiredo inaugurou outro dia a mesa presidencial, com um frugal almoço de carne-seca desfiada, tutu, couve picadinha e pudim de leite-, já perdeu a conta dos fregueses que acham pagar uma formalidade desnecessária. Ele pendurou um quadro-negro com os nomes dos que preferiram desaparecer a pagar ("temos saudades de Fulano, Sicrano e Beltrano", lê-se no quadro, mas o pessoal não se sensibiliza). É a vida, filosofa Chico.
Enfim, fiz grande sucesso. Exceto, é claro, entre a minha clientela de trabalho gratuito, que continua firme. Na semana passada, houve dias em que recebi quatro ou cinco solicitações. Tive que aceitar umas duas, pois era isso ou abater o solicitante a tiros. Bem, é a vida, filosofo eu.

O Conselheiro Come (III)
Para quem não sabe ou não se recorda, tenho que explicar. Já escrevi aqui duas vezes a respeito de como a mulher de Ruy Barbosa (sei que a norma culta agora manda usar i, mas, se eu grafar "Rui", corro o risco de ser linchado na Bahia), ao perceber que não teria ocorrido a seu marido estabelecer preço para os serviços que lhe confiavam, chamava o freguês e observava discretamente que ele tinha de pagar pelo trabalho.
- O conselheiro come... - lembrava ela.
O conselheiro, que por sinal passou dos setentinha, façanha digna de nota em sua época, deve ter sempre comido adequadamente. Mas, metaforizando-o para os dias de hoje, está cada vez mais difícil o conselheiro comer. Nós, brasileiros, costumamos conceber o trabalho intelectual ou artístico como algo que devia ser pago pelo governo, ou qualquer coisa assim, ou então não devia ser pago de forma nenhuma. Na verdade, creio mesmo que há uma conspiração em andamento para acabar com o trabalho intelectual, obrigando os nefelibatas que se dedicam a ele a procurar coisas mais sérias para fazer, como construir prédios auto-implosivos na Barra da Tijuca.
Lemos que Bill Gates, dono de 20% da Microsoft, é o homem mais rico do mundo e sua empresa vale mais do que as economias de muitos países. Mas o patrimônio de sua empresa não é físico. É intelectual, está no que produzem as cabeças a que ele paga (bem) para pensarem para ele. Em todo o mundo, sabe-se que o capital do presente é o conhecimento. E se investe prioritariamente em educação, pesquisa e cultura em geral. Mas aqui, não. Aqui, a começar pelos professores de todos os níveis, educação chega a parecer um luxo e os profissionais que se dedicam a ela recebem às vezes salários que seriam considerados insultuosos como esmola no Buraco Negro de Calcutá.
Não passa pela cabeça de ninguém, porque é amigo do dono da padaria, pedir-lhe fornecimento gratuito de pão, bolo ou café. Mas, se a mercadoria não é propriamente física, pagar é um absurdo, pois quem produz essas coisas vive de brisa e, ao exigir retribuição, mostra-se um vil mercenário, que só pensa em grana. Até a pirataria de livros, discos, cassetes, programas de computador e outros é vista com naturalidade e são considerados otários os que, entre comprar o livro e pegar uma xerox baratinha do trecho que lhes interessam, escolhem a primeira opção. E, como se as empresas e os profissionais que produzem tudo isso não precisassem de remuneração, são até rancorosamente acusados de gananciosos. Só que, naturalmente, no dia em que a pirataria for regra geral, ninguém mais vai escrever, compor, desenvolver ou publicar coisa nenhuma, vai ter é que procurar um emprego que lhe dê um dinheirinho.
Posso falar de cadeira, porque, entre cada dez telefonemas, nove são para que eu trabalhe de graça. Não é trabalho, aliás, que trabalho é para mim escrever 40 linhas aqui, 120 acolá, ler 400 a 800 páginas de originais por dia, fazer palestras, dar entrevistas - e isso tudo sob a permanente pressão de não dar uma escorregada, porque, se der, caem de pau? Não sou só eu, naturalmente, é todo mundo mais ou menos de meu ramo. Meu festejado colega Mario Prata, por exemplo, acaba de receber desvanecedor convite para comentar futebol, numa cadeia nacional de televisão. Sim, quanto pagavam? Nada, claro, ficaram até muito decepcionados porque o Mario falou em dinheiro, pensavam que ele era sincero, ao professar amor por futebol.
E mais muitas outras ele me conta, não só dele como de outros padecentes.
Quanto a mim, creio que o repertório atinge os índices olímpicos sem dificuldade. Tenho duas ou três novidades ilustrativas. Uma é um grande banco, que está promovendo um concurso literário de monta, coisa importante mesmo. Aí me telefonaram. Haverá uma comissão julgadora, que lerá os milhares de originais (ou livros, não sei bem) que certamente serão submetidos e fará uma triagem. Sobrarão pouco menos de 40 títulos para três prêmios finais. A atribuição desses três prêmios finais caberá a uma comissão de notáveis, para cuja composição eu estava sendo convidado. Mui honroso, pensei, mas quanto pagam por esse trabalho? Nada, obviamente, onde já se viu? E perdi mais essa chance de participar de uma comissão de notáveis, não agüento mais a frustração.
O segundo exemplo é de um canal de tevê internacional, se não me engano exclusivamente a cabo, que todo mundo conhece. Está fazendo um programa, ou série de programas, sobre os 500 anos de Brasil.
Telefonaram-me (só porque escrevi um livro chamado Viva o Povo Brasileiro, virei brasileirólogo, nunca mais me liberto disso). Eu falo inglês? Falo, sim, senhor. Ah, muito bem, então estou convidado para dar uma entrevista em inglês, a ser exibida no dito programa.
Perguntas sobre o povo brasileiro, explicações, interpretações, essas coisas bobas que qualquer um pode fazer em cinco minutos, com segurança e em inglês. Pois não, pois não, quanto pagam por esse trabalho? Nada, naturalmente, e lá se foi a chance de eu me exibir falando inglês na tevê internacional.
O pior é que tem muita gente que topa e, assim, trabalhadores como o Mario Prata e eu continuam repulsivos mercenários. E também se aceitam "pagamentos simbólicos", embora o supermercado da esquina se recuse a receber símbolos. Enfim, imagino eu, tudo pela glória. No meu caso, infelizmente, tenho de deixar a glória para depois, o conselheiro persiste em comer. Até mesmo porque descobri que o banco a que pago para guardar meu dinheiro (não digo o nome porque quem acaba sendo preso sou eu) tem um sistema de segurança falho, que permitiu que alguém clonasse meu cartão, soubesse minha senha e me depenasse aos bocadinhos durante meses. Agora tenho de me virar; vou ali, pedir uma cesta básica às Musas.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Cinco Poemas


(Dedicado à Cora Coralina)
Por que me fizeste isso velha maldita?
Por que me fizeste apaixonar por ti?
Não precisavas Ter-me mostrado a vida,
Eu não queria vê-la
Mas foste erva daninha que cresceu em minha consciência
E hoje
A ti dedico minhas horas e meu fazer poético.

Não consigo me esquecer de ti
Nas prostitutas da Voluntários
Não consigo deixar de amar-te nelas.
Pois como elas, dilacerando te arregaças
Deixando que o cheiro de teu sexo
Se evada pela vida em poesia.

Me mostraste tudo o quanto eu não devia ver
Para desperdiçar meu dom
Em tua docilidade telúrica
Na harmonia entre teus dedos
E a música chorosa que emana
Dos becos da tua Goiás

Na guerreira panteicidade brasileira
Que transborda dos teus versos
Que me fazem revoltar
Contra a suntuosidade dos palácios e gabinetes
Contra aqueles que merecem.

Mulher parideira
Deste ao mundo mais que filhos
Foste a própria luz
A própria lucidez universal.

Quando pintavas a cara velha e enrugada
Mascarando as marcas que o tempo te fez
Como fosse uma bandeira que se levanta
Dizendo que ainda há muito o que lutar
E que a guerra apenas principia

É por isso que tua poesia
É um canto ecumênico aos homens de boa vontade
Aos homens de força e amor pela vida
É seta que aponta
É ferro que fere
Bálsamo que cura.
É vida. Sobretudo, teu canto é vida.

Aninha das pernas tortas
Espectro do pai moribundo
Doceira de arrabalde
Mal parida. Velha maldita.
Bendita, seja.

Ton Neumann
Poema do livro "Da Serventia do Poema"

Do Despertar

O rádio toca uma canção sem importância
A noite está silenciosa
No mais, no que vejo
Tudo transfigura a paz.
Ou seria a angústia?
Por que há tanto do que embora eu não veja eu sei
Que às vezes se me torna difícil esquecer o tudo que há

A essa hora
Os padeiros já trabalham pelo bem de nossos estômagos e de nossos neurônios
De seu suor brota o alimento alheio
E alguns poucos tostões que compõem sua pobreza

Não longe daqui
Prostitutas ganham o sustento nas ruas
Ou no leito dos maridos

E a minha noite segue muda
Indiferente a minha suspeita de úlcera e o casamento alheio que adulterei

O verbo amar já se me faz obsoleto
O construir me traz suspeitas de impotência
Pensar me traz de volta algum passado,
Que não é algum
É aquele do qual fazes parte
E tento esquecer

Dentro de alguns instantes
As luzes das vilas e das favelas começarão a se acender

Mulheres com varizes nas pernas e corrimento vaginal
Sovaco fedendo, ranho escorrendo pelo nariz
Ameaça de tuberculose e cheirando a porra
Irão preparar as marmitas para os maridos
Que gozam os últimos quinze minutos de sono

A comida que irá com eles já estará pronta
É fria, às vezes azeda, outras insosa
E sempre, isso sempre, é uma comida pobre.
Reflete bem o estado de miséria em que vive nossa gente

Ninguém que jamais comeu uma comida assim
Sabe, ou é capaz de imaginar, a desgraça que é
Comê-la em meio ao cimento, de colher
Sentado no chão, entre gente que come de boca aberta e faz barulho ao mastigar

No entanto, é desta mesma comida que seus filhos comerão
Seus filhos sujos que dormem amontoados
Entre incestos, verminoses e marcas das pancadas que recebem de seus próprios pais

Seus filhos vendedores de amendoins, chicletes e flores
Nas varandas dos bares
Seus filhos malditos por nós e por nossos filhos
Seus filhos marcados pela doença e pelo analfabetismo
Cujo futuro mais tênue se resume sob sete palmos de terra

A mulher, que também faz parte deste contexto,
Agora sacode o marido avisando que a marmita já está pronta
E que sua hora chegou

Ele se levanta irritado, sai do barraco e vai até a bica
Passa uma água na cara.
É hora do desjejum.

O café será fraco como um mijo e acompanhado apenas de um resto de pão dormido

Depois sai sem se despedir
Trem, ônibus, andaime, ônibus, trem

Para no outro dia, quando o sol tornar a nascer
Ter que viver essa mesma merda de vida outra vez

E eu aqui,
Me lastimando pelo nosso amor que nada construiu


Ton Neumann

Poema de abertura do livro "Da Serventia do Poema"

Já que falei em novas regras ortográficas: minha contribuição

Fiz uma adaptação do que foi publicado no portal G1, por orientação do professor Sérgio Nogueira, que além de grande estudioso da língua é um ser humano fora de série. Ave, Sérgio.

As novas regras ortográficas estão valendo desde o dia 1º de janeiro de 2009. De acordo com o decreto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Sabem de quem se trata, não? O incompetente cachaceiro e semi-analfabeto que sancionou uma lei seca e uma reforma ortográfica) que , até 2012 valem as duas formas de escrever: a antiga e a nova. No Ano Novo começa o chamado “período de transição”. Portugal, que também aprovou o acordo ortográfico, adotará as novas regras até 2014.

O guia abaixo traz as mudanças que já estão definidas. Ainda há exceções - por exemplo, no uso do hífen - que deverão ser discutidas entre as Academias de Letras dos países que falam a língua portuguesa. Espera-se que a Academia Brasileira de Letras organize um vocabulário até fevereiro de 2009. Vale lembrar que o que muda é a grafia. Ou seja, nada de pronunciar “lin-gui-ça”. A fala continua a mesma, mesmo sem os dois pontinhos em cima do “u”.

Alfabeto:
As letras K,W e Y voltam a fazer parte do alfabeto da língua portugesa no Brasil que, assim, passa a ter 26 letras.

Trema – desaparece em todas as palavras
Antes:
Freqüente, lingüiça, agüentar
Agora:
Frequente, linguiça, aguentar
* Fica o acento em nomes como Müller

Acentuação 1 – some o acento dos ditongos abertos éi e ói das palavras paroxítonas.

Antes:
Européia, idéia, heróico, apóio, bóia, asteróide, Coréia, estréia, jóia, platéia, paranóia, jibóia, assembléia
Agora:
Europeia, ideia, heroico, apoio, boia, asteroide, Coreia, estreia, joia, plateia, paranoia, jiboia, assembleia


Acentuação 2 – some o acento no i e no u tônicos depois de ditongos, em palavras paroxítonas
Antes:
Baiúca, bocaiúva, feiúra
Agora:
Baiuca, bocaiuva, feiura
* Se o i e o u estiverem na última sílaba, o acento continua como em: tuiuiú ou Piauí

Acentuação 3 – some o acento circunflexo das palavras terminadas em êem e ôo (ou ôos)
Antes:
Crêem, dêem, lêem, vêem, prevêem, vôo, enjôos
Agora:
Creem, deem, leem, veem, preveem, voo, enjoos

Acentuação 4 – some o acento diferencial
Antes:
Pára, péla, pêlo, pólo, pêra, côa
Agora:
Para, pela, pelo, polo, pera, coa
* Não some o acento diferencial em pôr (verbo) / por (preposição) e pôde (pretérito) / pode (presente). Fôrma, para diferenciar de forma, pode receber acento circunflexo

Acentuação 5 – some o acento agudo no u forte nos grupos gue, gui, que, qui, de verbos como averiguar, apaziguar, arguir, redarguir, enxaguar
Antes:
Averigúe, apazigúe, ele argúi, enxagúe você
Agora:
Averigue, apazigue, ele argui, enxague você
Observação: as demais regras de acentuação permanecem as mesmas

Hífen – veja como ficam as principais regras do hífen com prefixos:

Prefixos: Agro, ante, anti, arqui, auto, contra, extra, infra, intra, macro, mega, micro, maxi, mini, semi, sobre, supra, tele, ultra...
Usa hífen:
Quando a palavra seguinte começa com h ou com vogal igual à última do prefixo: auto-hipnose, auto-observação, anti-herói, anti-imperalista, micro-ondas, mini-hotel
Não usa hífen:
Em todos os demais casos: autorretrato, autossustentável, autoanálise, autocontrole, antirracista, antissocial, antivírus, minidicionário, minissaia, minirreforma, ultrassom

Prefixos: Hiper, inter, super
Usa hífen:
Quando a palavra seguinte começa com h ou com r: super-homem, inter-regional
Não usa hífen:
Em todos os demais casos: hiperinflação, supersônico

Prefixo: Sub
Usa hífen:
Quando a palavra seguinte começa com b, h ou r: sub-base, sub-reino, sub-humano
Não usa hífen:
Em todos os demais casos: subsecretário, subeditor

Prefixo: Vice
Usa hífen:
Sempre: vice-rei, vice-presidente

Prefixo: Pan, circum
Usa hífen:
Quando a palavra seguinte começa com h, m, n ou vogais: pan-americano, circum-hospitalar
Não usa hífen:
Em todos os demais casos: pansexual, circuncisão

Primeira Postagem

Ano Novo, Blog Novo.Na verdade primeiro Blog. Como já tenho uma home page destinada a minha atividade como consultor, esse é um espaço mais pessoal, destinado a reflexões, poesias, imagens, fotos e comentários de minhas viagens pelo mundo, letras de música (minhas e de outros compositores) e o que mais me aprouver.

E lá vamos nós, de gramática nova e muitas dúvidas sobre a hifenização.

Primeira postagem a postos, aprendendo a lidar com esse novo espaço.

Ton Neumann
Aprendiz de Gente
 
  • ArrudA
  • CeciLia