terça-feira, 19 de julho de 2011

Sobre meu Retorno

Mana e Beto, amados meus, amigos de toda a vida.

Acabo de escrever esse texto e quero compartir com vocês em primeira mão.

É muito significativo para mim. É muito significativo comparti-lo com os dois.

Me sinto agraciado por tê-los em minha vida, irmãos paridos pelo amor que nos dedicamos.

Bjs aos dois, carinho, nessa noite fria,


Ton

Sobre meu Retorno



Sim. Sim. Sim. Definitivamente, sim. Escrevo porque preciso. E nem sempre que preciso consigo. E por vezes preciso, consigo e mesmo assim me recuso. Por que escrever é doar de si e há momentos na vida em não me posso doar, não tenho como forçar. Preciso consumir minha própria escrivinhação e nela me consumir, nutrir-me dela e permitir que de mim ela se nutra. Há quase dois anos não publico. Não que nesse tempo não tenha escrito, não tenha composto, não tenha criado. Mas não quis fazer para ninguém que não fosse absolutamente para mim mesmo. Lutei pela vida, senhores. Literalmente lutei pela vida. Estive perto da morte. Arrancaram-me um pedaço das tripas. Levaram junto três tumores. Imaginam poesia mais concreta do que essa? Poesia feita de vísceras, de tumores, de pólipos, de merda, de ameaça de morte.



O que me pergunto agora é que tumores hei de ter extirpado da alma, se é que algum o fiz? Que tipo de gente sou eu ao sobreviver a minha própria miséria? À doença pérfida forjada por meu próprio corpo. Serei melhor que a merda expulsa violentamente de minhas tripas antes que me abrissem como quem carneia um boi? Que lição ou doutores tumores hão de me haver ensinado?



Não esse não é um texto amargo de regresso à comunicação com quem quer que seja que tenha a caridade de me ler. É apenas o texto que pode escrever quem encarou a morte com um sorriso nos lábios como um ingênuo que desconhecia o que se passava consigo. É um texto de dúvida sobre o merecimento da celebração da volta a vida. Que tipo de criatura serei eu daqui para a frente. Essa é a questão. O que terá a proximidade da morte me ensinado para que eu presenteie a vida? Esse é o fato que impõe que eu volte a escrever algo que queira publicar. Um desejo imenso de me submeter em vida e letras à devassa de quem se arvore meu inquisidor ou se ofereça meu companheiro de indagações e descobrertas. A única certeza que trago é que a melhor versão de Torquemada será exercida por mim mesmo.



Como na sala de cirurgia, onde me cortaram a carne e onde acordei depois de tantas horas, ainda sem saber de fato o que havia acontecido comigo, eu me arregaço a alma sem anestesia. Sois vós, leitor, meu cirurgião. Sua crítica o bisturi. Sim, eu escrevo porque preciso. E porque tenho necessidades diferentes escrevo de formas e por motivos diferentes. Estou certo que um dia lerão produções desses quase dois anos em que não publiquei e, provavelmente, há menos que lhes conte, o que lerão será haverá de ter sido um dia o cibo que me susteve para que me mantivesse de alguma forma lúcido. E vivo. E me nutrindo aos poucos como um náufrago encontrando depois de semanas no mar. Para que conseguisse voltar a me entender e me percebesse no silêncio da produção não compartida. Compus para viver e para tal vivi. Num ciclo esquizofrênico, alheio ao mundo, alheio às cobranças de novos escritos, distante de tudo que não significasse caminho a minha reconstrução. À compreensão da minha própria identidade que se refazia. Não há maior coragem do que a de enfrentar a própria fraqueza, a própria miséria. Não há maior coragem do que aceitar o desafio de um processo de reconstrução a partir do que sobrou de nós mesmos depois que a vida devastou um boa parte de nós. Depois que sentimos o frio do indescritível bafo da morte.



Sim, eu escrevo porque preciso. E hoje precisei escrever para voltar ao convívio de quem deseja me ler. Precisei escrever para cruzar a fronteira que me tira do exílio, que me afasta do convívio de vós, que me arranca dos braços da solidão que é saber que não estou sendo lido. Durante meu período de afastamento escrevi e consumi solitário. Para viver. Escrevo, agora, como sempre antes fiz, para viver convosco.



A mim mesmo, antes que qualquer o faça, me dou as boas vindas. À vida. Ao mundo. À poesia. Ao sacro ofício de escrevinhar. E que eu possa me reinventar a cada dia um ser humano melhor. Humano; mas melhor. Que eu não desista nunca de ser o que até hoje consegui: um aprendiz de gente.



Sim. Sim. Sim. Definitivamente, sim. Escrevo porque preciso.


Ton Neumann

06 – 07 - 2011
 
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