sábado, 28 de fevereiro de 2009

O Ciúme

O sol arde, inclemente aos que a ele se submetem
Nenhuma folha se move
Nenhuma brisa farfalha entre as árvores;
Nenhum latido ou barulho de qualquer outro animal.
Nenhum sussurro de prece
Nenhum suspiro de saudade
Nenhum tórrido gemer de amantes
Nenhum soluço de dor
Nenhuma gargalhada de embriaguês
Paira no ar apenas um silêncio traiçoeiro
Somente o cheiro da morte, de alguma forma que não permite descrição,
Desafia o indescritível da tensão desse momento,
Tão presente quanto inexplicável

Como se saída do nada, sem que se perceba de onde,
Vara o ar a flecha do ciúme e atinge em cheio o coração do poeta
Antes mesmo que perceba o que de fato está a acontecer
Alarma-lhe o barulho seco do projétil ao adentrar seu corpo
Por um instante, a sensação de surpresa é substituída pela dormência.
Ele olha para os lados tentando identificar de onde lhe foi desferido o golpe
Seu corpo gira sem qualquer referência e o mundo todo em volta de si
Um misto de náusea e boca seca tomam-no por completo
A cabeça dói, lateja, como que presenciado à distância o que está acontecendo,
Mas sem poder intervir em nada.
Então o veneno da flecha mostra ao que veio
E lhe submete a um tipo de ardência desconhecida, corrosiva, justo em seu coração
O sangue molha o peito e sua dor se confunde com a vergonha que o novo e indesejado sentimento proporcionam.

Como revelar a mulher amada uma sua face tão mesquinha¿
Como correr o risco de decepcioná-la¿
Como revelar-se fraco, ainda que sejam os humanos fracos,
A quem te supõe herói¿
A que te vê como a El Condor
Voando acima da miséria do que é comum aos mortais
Como revelar a pobreza de minha alma que se corrói
Ao encontrar marcas de teu ex-amor ela casa a fora¿
Como conter o ímpeto de te implorar que as apagues pois nenhum outro te merece mais que eu
E que depois do que meu corpo fez com o teu
Nenhum sinal é digno de estar em teu caminho
De desviar tua atenção
Sobre aquilo que desejo que te seja supremo: meu amor
Como suprema és para mim.

Como ter cara de usar a poesia para te revelar que há motivos para que deixes de me querer¿

Calo, agora, à espera do veredicto que sei que nesse momento teu coração processa
Mas não me furto de revelar o que o meu fala:
Tenho ciúmes, sim.
Não me orgulho dele
Mas fui por ele abatido e não posso mais esconder de isso de ti
Resta-me uma ponta de esperança,
Não pelo pequeno que sinto,
Mas pelo grande que és
De que meu ciúme, para ti, possa vir a ser
Mais uma das tantas provas de amor que tenho
Ainda que por tão sombria senda,
A teu coração, oferecer.
Ton Neumann

Um comentário:

MARIA ROSELI RIFFATTI disse...

Ton
Que coração sensível e que habilidade pra transformar em arte todos os sentimentos. É suave, envolvente. Sigo lendo... Abraços -Rose

 
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