sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Sobre a Despedida do Poeta que Até Hoje Sempre me Habitou

Me pediste que escrevesse um poema dizendo o quanto te amo

E porque meu hábito sempre foi te agradar,
Fazer de tudo para provocar em ti esse sorriso
Que em mim outro sempre resultou
Correndo vim, atrás de contemporâneas, digitais penas e papiros
(porque melhor cai aos românticos romantizar cenários)
Confiante de que neles deitaria versos para te encantar
Como desde a primeira vez em que te vi
Virou meu vício
Momento de prazer supremo
Me entregar ao sacrifício
O sacro
O sagrado ofício
De descortinar a constelação de estrelas que sempre brilhou em teu rosto
A cada nova estrofe que com teus olhos devoravas
Causando em mim a sensação de herói
De Deus, ainda que não seja
Blasfemo mundano, que na realidade sou
Bardo apaixonado
Minha vida só encontrou sentido
Quando destinada foi a te escrever e te entregar poemas

Mas sinto muito
Muito mesmo, amada minha
Muito mais do que tu possas imaginar
Porque é sofrido é por demais
Admitir o quanto ao passo que os sentimentos cambiam
Nosso talento, até fenecer, definha
E tenho que admitir, em minha suprema incompetência
Que não sou mais capaz de te escrever poemas de amor.

Falhei, amada
Não posso mais ser teu poeta
Não posso mais te encantar
Não tenho mais talento para tal

Não porque não mais te mais ame
Não porque não sejas a suprema musa que um poeta possa ter
Não porque não sejas cada vez mais a razão dos meus dias
Ao contrário
A ausência de poemas, a partir de hoje
É a maior das provas da existência e da grandeza desse amor
Amor esse tão supremo e lindo
Que nenhuma poesia
Que eu ou outro homem jamais pudesse lavrar
Seria capaz de descrever
O verdadeiro milagre que o teu chegar provocou em minha vida.

Por isso, a partir de hoje
Não mais poeta
Não mais bardo
Não mais cantor

Apenas teu homem
Teu marido
Teu amor

Não mais poemas
Não mais versos
Não mais cantigas

Nossa poesia, a partir de hoje, se fará de vida
E é com as tintas do amor
Que haveremos de grafar nos dias
A mais linda história que a um homem e uma mulher foi reservada

Não, nunca mais te escreverei poemas
Se é que acreditas
Minha Chele
Meu amor

Ton Neumann
São Sebastião do Rio de Janeiro
Aos nove dias do mês de outubro de 2009
A esperar tua chegada.

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