sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Roccaille

Cara de anjo

Casa de rocha

Claro sinal

Luz compartida

Pernas de sonho

Boca de mar

Boca de amar

Sorriso de rio

Colo macio

E essa fêmea no cio

A se me entregar

Por todas suas águas, senhora

Desejo meu barco singrar

Marujo que eu sou

Tão sem hora, sem pressa

De velas subir

Âncoras levantar

Quem disse que um Porto Seguro

Não guarda segredos, mistérios¿

Quem disse que um cais

Mesmo feito de pedras

Não tem a leveza capaz de fazer um corsário

No céu flutuar¿

Minha menina de rocha

Onomatopéica criança

Mulher em forma de graça

Tez de textura mais rara

Beijo na boca roubado

Desejo silenciado

Motivo para mas um dia

Razão para a poesia

Ton Neumann

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Eu sei que o Dia Internacional da Mulher é só 08 de março. Mas como já estamos com a campanha pubilitária na rua, resolvi colocar o texto que escrevi para o dia aqui. Espero que gostem. Apesar de ter o caráter de ser uma peça publicitária, escrevi de coração.

Por Vós
Não apenas por que de uma de vós eu vim
E para os braços de outra corro em desesperado amor
Não por que sois meu ponto de partida e porto seguro de minha chegada
Não por que com algumas de vós ri todos os risos da alegria
E todos os prantos da mágoa do amor perdido por outras chorei

Mas, mais e, sobretudo
Por que vossa linhagem é superior
Tanto que o próprio Deus se fez homem para nascer do ventre de uma de vós...

Mulher,
Encho minha boca para dizer teu nome
E rejubilo de alegria ao te fazer musa de meu ofício
Ao merecer teu sorriso,
Tua atenção e carinho por onde quer que eu haja de passar
Pois nobre é teu coração e grandes são as dádivas que tens a oferecer

Se te dedicaram um dia internacional
Te dedico o que me há de mais caro
Meu amor, minha vida inteira
O fazer de meus versos
Mulher,
A ti dedico minha poesia
O que, certamente, é o que mais visceral de mim pode falar do amor
Tu, que em um só ser, reúne todas as suas nuanças...

Ton Neumann
Escrevi esse artigo no final de 2008 e ainda não o havia postado.

Agora postei. Aí está.

Em 2009, muitos vão chorar;
outros vão vender lenços.

Que me perdoem a forma pouco polida (afinal de contas, não passo de um descendente de alemães judeus e italianos, cujo apego pelos rapapés foi forjado na geada e no minuano dos pampas gaúchos – sei que a mistura é mesmo explosiva), mas estou de saco cheio de ouvir falar dessa coisa de crise em 2009.

Outro dia, em evento público, acabei por desferir (sim, a expressão é exatamente essa) a frase dá título a esse artigo. Fui ovacionado por uns e atomatado por outros. Os que me aplaudiram, imagino que tenham saído dali correndo atrás dos metafóricos lenços que pretendem comercializar; os que me torceram os narizes chamaram-me de grosso, mal-educado, insensível, além de outros adjetivos que o carinho que resguardo pela figura materna me impede de trazer à voga. Porém discordo peremptoriamente. Podem me fazer essas acusações por outras atitudes que tenha tomado, não por essa. E a de insensível, sobre essa fecho questão de que, definitivamente, é injusta. Também poupem a pobre velha. Senão, vejamos.

Não criei a crise, não desejei a crise, não alimento a crise e, finalmente, não acredito na crise. Como assim, devem estar se perguntando? Está louco? Como não acredita na crise se ela está aí, derrubando bolsas, trazendo desemprego, gerando férias coletivas não programadas, despencando o valor de commodities? A questão é a seguinte (centremos nossa dialética nos cânones católicos, para melhor exemplificar): Você se confessa? Se a resposta for sim, é por que assume que peca. E por que se considera um pecador, logo acredita em pecado. Portanto precisa fazer algo que o elimine de você, ou arderá no fogo do inferno. Eu não. Não acredito em pecado, logo não peco. Não pecando, não sou pecador. Não sendo pecador, não vou para o inferno, não tenho uma vida atormentada pela culpa. Prefiro investir meu tempo e minha pouca inteligência (não precisam rir, sei que não é lá essas coisas, mas é a que tenho) em orientar minha vida por valores éticos universais, respeito aos com que convivo, apego pela verdade e honestidade nos propósitos, fraternidade com os mais necessitados. Mas e o céu? E o inferno? Não penso neles. São assuntos que não me dizem respeito. Cumpro minhas funções de filho do criador através de ações. Não de ritos.

Deu para perceber o paralelo com a crise? Pecado e crise dizem respeito à postura que temos em relação a eles. E eu não me mixo para nenhum dos dois. Há, sim, temos uma nova ordem econômica vigindo por esses dias? É verdade. E digo mais. Bem vinda essa nova ordem econômica, pois o que ela está fazendo é tirar dinheiro falso do mercado. Isso mesmo, dinheiro falso. Ou há outra explicação mais precisa para operações de sub-prime em cascata? Esse freio de arrumação poderia servir para que se encontrasse o elo perdido entre os marcos regulatórios e a liberdade de mercado. Se isso, de fato vai acontecer, não sei. Para ser honesto, acho que não. E lamento muito por isso. Mas há gente muito poderosa que ganha muito dinheiro com esse sistema onde papel gera dinheiro sem lastro. Assim podem fabricar outras crises e ganhar mais dinheiro de forma espúria com essa criação perversa. E nesse pecado eu acredito. Esse eu repudio.

Mas, voltando ao que a tal crise nos diz respeito diretamente e imbuído de meu lado Rodiney Soares, diria (posso dizer escrevendo, é uma figura de estilo) para distintos que acompanham meu raciocínio -Veja bem: se há quem chore, há quem necessite de lenços. Não há nada de mal em vender lenços, desde que se entenda de fato o que significa isso. Não há dolo ou ausência de ética nisso. O que há, na verdade, é um senso de realismo e oportunidade (sim, não oportunismo) nesse tipo de postura. Quando vendo lenço a quem chora, gero movimento na economia, faço com que costureiras tenham emprego, que o homem do frete receba sua parte, que o dono do posto garanta emprego ao frentista, que a fábrica de tecidos tenha que contratar novas pessoas, que os vendedores de quentinhas tenham mais clientes, que isso tudo chegue ao homem do campo e, finalmente, que possamos oferecer um choro mais confortável aos que estiverem chorando. Por que chorar, sem sequer ter um lenço por perto...ninguém merece. Vai um aí?

O que acredito é que cada empresário, empreendedor, cidadão, enfim, precisa encontrar o seu lenço. As passagens aéreas internacionais subiram 25%? Ótimo para o turismo nacional. Mas as nacionais também subiram 17%? Ótimo para as dezenas de lugares maravilhosos que estão ao alcance de um tanque de gasolina e que não conhecemos. Mas...sabemos que eles existem? As agências de turismo nos informam desses lugares? Ou são simplesmente replicadoras de pacotes formatados por operadoras que oferecem produtos também pela internet? Os donos desses lugares os tratam de forma profissional, ou cada vez que têm possibilidade exploram o turista em vez de explorar o turismo? Ao menos nos informam sobre esses lugares e que eles estão ao nosso alcance? Ora, ninguém perdeu o prazer em viajar, em ter momentos felizes de lazer. O setor precisa se reinventar, criar novas formas de atrair um público que aí está, sequioso por boas ofertas. Se forem ótimas, então, é chupetinha no mel.

Menos carros zero? Oportunidade para lanterneiros e mecânicos. Impossibilidade com gastos de luxo? Oportunidade para setores que trabalham com reformas de tudo; de estofadores a pedreiros. Pouco dinheiro para o mercado de entretenimento? Que tal resgatar pessoas que não têm o costume de assistir a espetáculos viabilizando o preço dos ingressos para esse público e ganhando na escala? Que tal uma parceria com o boteco ao lado do teatro do tipo: compre um ingresso, ganhe um chope e sente ao lado dos atores do espetáculo depois da peça?

Confesso que há alguns produtos meus que estou seguro que venderei como nunca antes (vou livrar-los do “na história desse país”) nesse 2009, a saber. Uma showlestra chamada “Vendedor de Sonhos”, uma outra intitulada “Quando o Atendimento é um Show”, ambas também são apresentadas em formato de palestra (a diferença é que nas Showlestras eu vou desenvolvendo os assuntos cantado, acompanhado de uma banda). Os seminários de Habilidades de Comunicação com Grupos, onde buscamos desenvolver nos participantes, através de técnicas dramáticas, aplicadas a técnicas de apresentação, a competência para apresentar produtos, idéias e serviços com segurança e autonomia, os de Desenvolvimento de Pensamento Criativo e Liderança, isso sem falar nos trabalhos que farei sobre atendimento com foco do cliente, junto a empresas que sabem que o desenvolvimento de seus funcionários é um dos pilares mais importantes na sustentação das empresas que verão oportunidades reais de crescimento e divisão de renda nessa tão falada crise. É isso. Eu tinha um artigo para escrever falando sobre a crise. O fiz e ainda encontrei uma oportunidade para fazer um comercial do meu trabalho. Não vou ficar com os cabisbaixos que estão aí sofrendo pela crise. Nasci para fazer sucesso, ser feliz. Não para andar choromingando pelos cantos. Sou empreendedor. Sou realizador dos meus sonhos e dos sonhos dos outros. Sou vendedor. Aliás, se perguntarem a você quantos vendedores têm em sua empresa e a resposta não for: todos os funcionários, tenho uns lenços aqui para vender.

Em 2009, muitos vão chorar; outros vão vender lenços. Por tudo o que expus acima, eu já decidi de que lado estarei. E você? Já decidiu? Feliz 2009. Se você quiser.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009







Um de meus santos de devoção é esse: São João Ubaldo Ribeiro. Santo Porreta, chagado em água benta curtida no carvalho, traz ensinamentos fantásticos como os que se seguem, para profissionais que vivem daquilo que produzem.

Com a palavra, o Santo.

O Conselheiro Come (I)
Quando eu era estudante em Salvador, tinha sempre um colega ou professor especialista em histórias sobre Ruy Barbosa, a maior parte delas com certeza inventada. Não pode ser verdadeira, por exemplo, a anedota segundo a qual ele chegou a Londres e publicou um anúncio no Times: "Ensina-se inglês aos ingleses". Também não boto muita fé em que ele se distraía arrolando dezenas de sinônimos para "chicote" ou "prostituta", embora até hoje existam muitos conterrâneos meus que se aborrecem com quem desmente essas e outras alegações.
Mas há histórias sobre ele em que acredito. Uma delas, aliás, nem o tem como protagonista, mas, sim, sua mulher. Dizem que, procurado para dar um parecer ou realizar um trabalho qualquer, Ruy Barbosa, como acontece com muitos intelectuais, não costumava puxar o assunto do pagamento. E contam que, depois de ver o marido explorado com freqüência, a mulher dele chamava o visitante para uma conversinha, na saída. Perguntava se tinham acertado alguma remuneração e, como a resposta era quase sempre negativa, ela, delicadamente, pedia ao visitante que voltasse e combinasse um pagamento.
- O conselheiro come... - explicava ela.
Pois é, o conselheiro comia. E eu, apesar de não ser nem conselheiro nem Águia de Haia, também como. Mas creio que há muita gente que acha que escritores, de modo geral, não comem, nem precisam de dinheiro para nada. Como tudo mais, deve ser culpa da imprensa, que costuma falar em escritores de best-sellers internacionais, os quais ganham dois milhões de dólares por mês, papam nove entre cada dez estrelas de cinema e têm vastas coleções de carros e relógios de luxo. A verdade, ai de nós, é que a maior parte dos escritores, não só aqui como no mundo todo, tem que se virar de várias formas para conseguir viver modestamente.
Acho que foi o Paulo Francis que se queixou, já faz algum tempo, do volume de trabalho de graça que aqui esperam dele. Agora me queixo eu. O Brasil, me parece, é campeão nesse tipo de prática. As pessoas esperam que o escritor trabalhe de graça o tempo todo e ficam grandemente ofendidas quando ele se recusa. Há poucos dias, um grupo de estudantes universitários passou para mim a tarefa que lhes tinha sido incumbida pelo seu professor de literatura brasileira e, como eu não concordei em fazer o trabalho por eles, ficaram aborrecidíssimos e só faltaram xingar toda a minha árvore genealógica. Para não falar que, mesmo que eu quisesse fazer o trabalho, não saberia responder a perguntas do tipo "como caracterizar sua inserção no contexto da literatura brasileira pós-moderna".
As encomendas de trabalhos escolares aparecem mais ou menos a cada mês. Já originais de livros para meu exame chegam todos os dias. A impressão que tenho é que a maior parte dos autores deseja que eu largue tudo o que estiver fazendo, leia sofregamente os originais, adore tudo, escreva um prefácio arrebatado e edite o livro - após o que ele passará a ganhar dois milhões de dólares por mês, a papar nove em cada dez estrelas de cinema e, enfim, viver essa vidinha de escritor. E, na verdade, a pessoa não quer uma opinião sincera, como sempre alega. Quer, o que, aliás, é natural, receber a confirmação de seu talento. Mas, se eu fosse ler todos os originais que me surgem, não faria outra coisa na vida. Além disso, tenho muito pudor de dar opinião sobre o trabalho alheio, não me acho qualificado. E fico sem graça e me sentindo culpado porque não posso ler os originais. Não é justo, pois não posso mesmo, mas é o que acontece.
Entrevista é outro trabalho de lascar. Parece-me que a entrevista devia ser destinada a obter informações que ainda não tenham sido tornadas públicas. Por exemplo, todo mundo que já ouviu falar de mim sabe que eu sou baiano e moro no Rio. Contudo, a esmagadora maioria dos entrevistadores começa perguntando onde nasci e se ainda moro em Itaparica. Uma repórter iniciou sua entrevista perguntando se eu era escritor. As perguntas são invariavelmente as mesmas e podiam ser respondidas com uma olhada nos arquivos do jornal ou revista, mas eu tenho de dar a entrevista e, novamente, trabalhar de graça. Não agüento mais contar que livros publiquei, que gosto de escrever de manhã, que aprendi inglês quando era menino, que nasci em Itaparica e passei a infância em Sergipe etc. etc. etc.
No caso da televisão costuma ser pior. Todo mundo que trabalha em televisão, aqui neste país onde ela é das coisas mais importantes que existem, se acha o máximo porque trabalha na televisão. A síndrome de Bozó, do Chico Anysio, assume várias formas. Os seguranças tratam a gente como lixo, devendo dar-se por felicíssima por ter a chance de aparecer na tevê. Para trabalhar de graça, a gente tem de comparecer ao estúdio, identificar-se, botar crachá, ficar esperando e obedecer ordens estranhas, tais como não olhar para a pessoas com quem se está falando, mas para a câmera. Uma vez me fecharam num cubículo durante um tempo interminável e aí, amedrontado, fugi. De vez em quando, alguém fica indignado porque uso óculos e dá reflexo, ou porque sou careca e também dá reflexo, quase me obrigando a pedir desculpas por existir.
O interessante é que, se o camarada é amigo do dono do armazém ou da quitanda, não lhe ocorre pedir para fazer a feira da semana de graça. Afinal, trata-se de um negócio, sobrevive-se daquilo. O escritor e o jornalista também sobrevivem de seu trabalho, mas parece que ninguém acredita nisso. Volta e meia sou levado a crer, pelo jeito imperioso com que freqüentemente me intimam a trabalhar de graça, que acham que recebo um estipêndio do governo para exercer essas funções. Quando, certa feita, aceitei pagamento para escrever e assinar um anúncio, caíram de pau em cima de mim e dos outros que toparam o mesmo serviço, como se tivéssemos vendido nossas santas e puras almas ao diabo. Sei que talvez fizesse muito melhor figura de escritor se vivesse bebum, esmolambado e tomando uns trocados emprestados aqui e ali. Mas, infelizmente, me falta vocação, devo ser um falso escritor, nem milionário nem miserável.

O Conselheiro Come (II)
No relacionamento com o público, escritores e jornalistas não são como atores ou cantores. Estes sentem de pronto, pelo aplauso ou pela vaia, se agradaram ou não. Aqueles só de vez em quando sabem se o que publicaram foi bem recebido pelos leitores, através de uma eventual carta ou encontro casual. Assim mesmo, quando a reação é negativa, as pessoas geralmente evitam revelá-la diretamente. Aplaudir ou vaiar é mais fácil, porque se trata de um comportamento grupal. Já chegar individualmente ao infeliz escrevinhador e jogar-lhe na cara que o que ele cometeu é ruim fica mais difícil.
Creio, contudo, ser uma exceção, pelo menos parcial, porque tenho críticos severos, alguns deles meus amigos, como o taxista Carlão, exemplar profissional do volante que faz ponto no Jardim Botânico. De modo geral, Carlão gosta do que eu escrevo aqui, mas, de vez em quando, sem muita sutileza, mas amistosamente, opina que "aquela do domingo passado estava meio chata", ou me diz que eu devia estar com azia, no dia em que escrevi isso ou aquilo. Um senhor esguio e de porte altivo, geralmente demonstrando estar com umas duas talagadas no juízo, de vez em quando me detém, ao nos toparmos na rua, para apertar minha mão e cumprimentar-me vivamente. Em compensação, há dias, embora raros, em que apenas me acena de longe e grita:
-Olha aí, a de hoje estava uma desgraça! Foi você mesmo que escreveu? Olha o nível, atenção!
Rio amarelo, prometo tentar caprichar na próxima. Raciocino que, se o sujeito gasta seu dinheiro para comprar o jornal, tem o direito de criticar a mercadoria. Que é que vou fazer, quem sai na chuva é para se molhar e, afinal, estamos numa democracia e a livre manifestação da opinião é sagrada. Não vou ser hipócrita e dizer que não gosto de elogio e não me chateio com críticas negativas, mas faço um sincero esforço para me comportar com a elegância possível, tanto num caso quanto no outro.
E, quando uma crônica ou artigo dá, digamos assim, ibope, sinto uma espécie de felicidade secreta, entre as cartas de aprovação, faxes (precisamos resolver esse plural de fax, palavra que o Aurélio ainda não registra; já que sou o caçulinha, vou perguntar aos mais velhos, lá na Academia) entusiásticos, aplausos em botecos e outras demonstrações. E os ibopes mais altos muitas vezes são uma surpresa para mim. Foi o que aconteceu com uma crônica (ou artigo, sei lá; vou também perguntar sobre isso na Academia), publicada há uns dois ou três domingos, em que eu, mencionando a preocupação da mulher do conselheiro Ruy Barbosa com que pagassem pelo trabalho de seu marido, comentava como querem que escritores e similares trabalhem de graça, aqui no Brasil.
Meninos, só vocês vendo. Até hoje chegam mensagens de solidariedade e não somente de escritores e jornalistas, mas de todo tipo de profissional, o que parece indicar que há mais sopeiros e folgados entre nós do que suspeitamos à primeira vista. Jorge Amado, ainda hospitalizado, mandou transmitir calorosas felicitações e afirmou que, doravante, vai enviar minha crônica a todo mundo que lhe pedir para trabalhar de graça - ou seja, algumas centenas, ou milhares, de caras-de-pau. O festejado romancista Antônio Torres me telefonou, para, com a voz embargada de entusiasmo condoreiro, fazer um discurso de aprovação. A bela e também festejada escritora Ana Maria Machado fez a mesma coisa. E mais outros, que os neurônios que já não disparam deletaram (não é assim que se diz, hoje em dia?) da minha pobre memória.
Dois médicos, igualmente indignados, me mandaram cartas, contando como são praticamente forçados a dar consultas grátis. Um deles, cardiologista, deu para variar seus horários de calçadão. Andava de manhãzinha, mas a "clientela" aumentou tanto que ele não podia mais andar, pois tinha de parar a cada minuto, para tomar o pulso de um, receitar um vasodilatador para outro e ouvir sem acreditar um sujeito lhe pedir para levar o estetoscópio e o esfigmomanômetro (medidor de pressão arterial; desculpem o palavrão, mas o Aurélio diz que tensiômetro está em desuso) para a praia, a fim de melhor servir a seus pacientes. O outro não atende mais telefone, porque, na quase totalidade dos casos, do outro lado da linha está um consulente aflito, querendo só o nome de um remedinho para o pâncreas, ou para o fígado, ou para frieira no dedão.
Um pintor, que preferiu não se identificar, disse por fax que não agüenta mais os pedidos de quadros de presente, com promessas de pendurá-los em local de destaque. Também se queixou de que vivem lhe mandando listas de presentes de casamento em que se comunica que se espera dele um ou dois quadros. Chico Simões, o filosófico (escola estóico-pragmática) proprietário lusitano do celebrado boteco Tio Sam - onde o general Figueiredo inaugurou outro dia a mesa presidencial, com um frugal almoço de carne-seca desfiada, tutu, couve picadinha e pudim de leite-, já perdeu a conta dos fregueses que acham pagar uma formalidade desnecessária. Ele pendurou um quadro-negro com os nomes dos que preferiram desaparecer a pagar ("temos saudades de Fulano, Sicrano e Beltrano", lê-se no quadro, mas o pessoal não se sensibiliza). É a vida, filosofa Chico.
Enfim, fiz grande sucesso. Exceto, é claro, entre a minha clientela de trabalho gratuito, que continua firme. Na semana passada, houve dias em que recebi quatro ou cinco solicitações. Tive que aceitar umas duas, pois era isso ou abater o solicitante a tiros. Bem, é a vida, filosofo eu.

O Conselheiro Come (III)
Para quem não sabe ou não se recorda, tenho que explicar. Já escrevi aqui duas vezes a respeito de como a mulher de Ruy Barbosa (sei que a norma culta agora manda usar i, mas, se eu grafar "Rui", corro o risco de ser linchado na Bahia), ao perceber que não teria ocorrido a seu marido estabelecer preço para os serviços que lhe confiavam, chamava o freguês e observava discretamente que ele tinha de pagar pelo trabalho.
- O conselheiro come... - lembrava ela.
O conselheiro, que por sinal passou dos setentinha, façanha digna de nota em sua época, deve ter sempre comido adequadamente. Mas, metaforizando-o para os dias de hoje, está cada vez mais difícil o conselheiro comer. Nós, brasileiros, costumamos conceber o trabalho intelectual ou artístico como algo que devia ser pago pelo governo, ou qualquer coisa assim, ou então não devia ser pago de forma nenhuma. Na verdade, creio mesmo que há uma conspiração em andamento para acabar com o trabalho intelectual, obrigando os nefelibatas que se dedicam a ele a procurar coisas mais sérias para fazer, como construir prédios auto-implosivos na Barra da Tijuca.
Lemos que Bill Gates, dono de 20% da Microsoft, é o homem mais rico do mundo e sua empresa vale mais do que as economias de muitos países. Mas o patrimônio de sua empresa não é físico. É intelectual, está no que produzem as cabeças a que ele paga (bem) para pensarem para ele. Em todo o mundo, sabe-se que o capital do presente é o conhecimento. E se investe prioritariamente em educação, pesquisa e cultura em geral. Mas aqui, não. Aqui, a começar pelos professores de todos os níveis, educação chega a parecer um luxo e os profissionais que se dedicam a ela recebem às vezes salários que seriam considerados insultuosos como esmola no Buraco Negro de Calcutá.
Não passa pela cabeça de ninguém, porque é amigo do dono da padaria, pedir-lhe fornecimento gratuito de pão, bolo ou café. Mas, se a mercadoria não é propriamente física, pagar é um absurdo, pois quem produz essas coisas vive de brisa e, ao exigir retribuição, mostra-se um vil mercenário, que só pensa em grana. Até a pirataria de livros, discos, cassetes, programas de computador e outros é vista com naturalidade e são considerados otários os que, entre comprar o livro e pegar uma xerox baratinha do trecho que lhes interessam, escolhem a primeira opção. E, como se as empresas e os profissionais que produzem tudo isso não precisassem de remuneração, são até rancorosamente acusados de gananciosos. Só que, naturalmente, no dia em que a pirataria for regra geral, ninguém mais vai escrever, compor, desenvolver ou publicar coisa nenhuma, vai ter é que procurar um emprego que lhe dê um dinheirinho.
Posso falar de cadeira, porque, entre cada dez telefonemas, nove são para que eu trabalhe de graça. Não é trabalho, aliás, que trabalho é para mim escrever 40 linhas aqui, 120 acolá, ler 400 a 800 páginas de originais por dia, fazer palestras, dar entrevistas - e isso tudo sob a permanente pressão de não dar uma escorregada, porque, se der, caem de pau? Não sou só eu, naturalmente, é todo mundo mais ou menos de meu ramo. Meu festejado colega Mario Prata, por exemplo, acaba de receber desvanecedor convite para comentar futebol, numa cadeia nacional de televisão. Sim, quanto pagavam? Nada, claro, ficaram até muito decepcionados porque o Mario falou em dinheiro, pensavam que ele era sincero, ao professar amor por futebol.
E mais muitas outras ele me conta, não só dele como de outros padecentes.
Quanto a mim, creio que o repertório atinge os índices olímpicos sem dificuldade. Tenho duas ou três novidades ilustrativas. Uma é um grande banco, que está promovendo um concurso literário de monta, coisa importante mesmo. Aí me telefonaram. Haverá uma comissão julgadora, que lerá os milhares de originais (ou livros, não sei bem) que certamente serão submetidos e fará uma triagem. Sobrarão pouco menos de 40 títulos para três prêmios finais. A atribuição desses três prêmios finais caberá a uma comissão de notáveis, para cuja composição eu estava sendo convidado. Mui honroso, pensei, mas quanto pagam por esse trabalho? Nada, obviamente, onde já se viu? E perdi mais essa chance de participar de uma comissão de notáveis, não agüento mais a frustração.
O segundo exemplo é de um canal de tevê internacional, se não me engano exclusivamente a cabo, que todo mundo conhece. Está fazendo um programa, ou série de programas, sobre os 500 anos de Brasil.
Telefonaram-me (só porque escrevi um livro chamado Viva o Povo Brasileiro, virei brasileirólogo, nunca mais me liberto disso). Eu falo inglês? Falo, sim, senhor. Ah, muito bem, então estou convidado para dar uma entrevista em inglês, a ser exibida no dito programa.
Perguntas sobre o povo brasileiro, explicações, interpretações, essas coisas bobas que qualquer um pode fazer em cinco minutos, com segurança e em inglês. Pois não, pois não, quanto pagam por esse trabalho? Nada, naturalmente, e lá se foi a chance de eu me exibir falando inglês na tevê internacional.
O pior é que tem muita gente que topa e, assim, trabalhadores como o Mario Prata e eu continuam repulsivos mercenários. E também se aceitam "pagamentos simbólicos", embora o supermercado da esquina se recuse a receber símbolos. Enfim, imagino eu, tudo pela glória. No meu caso, infelizmente, tenho de deixar a glória para depois, o conselheiro persiste em comer. Até mesmo porque descobri que o banco a que pago para guardar meu dinheiro (não digo o nome porque quem acaba sendo preso sou eu) tem um sistema de segurança falho, que permitiu que alguém clonasse meu cartão, soubesse minha senha e me depenasse aos bocadinhos durante meses. Agora tenho de me virar; vou ali, pedir uma cesta básica às Musas.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Cinco Poemas


(Dedicado à Cora Coralina)
Por que me fizeste isso velha maldita?
Por que me fizeste apaixonar por ti?
Não precisavas Ter-me mostrado a vida,
Eu não queria vê-la
Mas foste erva daninha que cresceu em minha consciência
E hoje
A ti dedico minhas horas e meu fazer poético.

Não consigo me esquecer de ti
Nas prostitutas da Voluntários
Não consigo deixar de amar-te nelas.
Pois como elas, dilacerando te arregaças
Deixando que o cheiro de teu sexo
Se evada pela vida em poesia.

Me mostraste tudo o quanto eu não devia ver
Para desperdiçar meu dom
Em tua docilidade telúrica
Na harmonia entre teus dedos
E a música chorosa que emana
Dos becos da tua Goiás

Na guerreira panteicidade brasileira
Que transborda dos teus versos
Que me fazem revoltar
Contra a suntuosidade dos palácios e gabinetes
Contra aqueles que merecem.

Mulher parideira
Deste ao mundo mais que filhos
Foste a própria luz
A própria lucidez universal.

Quando pintavas a cara velha e enrugada
Mascarando as marcas que o tempo te fez
Como fosse uma bandeira que se levanta
Dizendo que ainda há muito o que lutar
E que a guerra apenas principia

É por isso que tua poesia
É um canto ecumênico aos homens de boa vontade
Aos homens de força e amor pela vida
É seta que aponta
É ferro que fere
Bálsamo que cura.
É vida. Sobretudo, teu canto é vida.

Aninha das pernas tortas
Espectro do pai moribundo
Doceira de arrabalde
Mal parida. Velha maldita.
Bendita, seja.

Ton Neumann
Poema do livro "Da Serventia do Poema"

Do Despertar

O rádio toca uma canção sem importância
A noite está silenciosa
No mais, no que vejo
Tudo transfigura a paz.
Ou seria a angústia?
Por que há tanto do que embora eu não veja eu sei
Que às vezes se me torna difícil esquecer o tudo que há

A essa hora
Os padeiros já trabalham pelo bem de nossos estômagos e de nossos neurônios
De seu suor brota o alimento alheio
E alguns poucos tostões que compõem sua pobreza

Não longe daqui
Prostitutas ganham o sustento nas ruas
Ou no leito dos maridos

E a minha noite segue muda
Indiferente a minha suspeita de úlcera e o casamento alheio que adulterei

O verbo amar já se me faz obsoleto
O construir me traz suspeitas de impotência
Pensar me traz de volta algum passado,
Que não é algum
É aquele do qual fazes parte
E tento esquecer

Dentro de alguns instantes
As luzes das vilas e das favelas começarão a se acender

Mulheres com varizes nas pernas e corrimento vaginal
Sovaco fedendo, ranho escorrendo pelo nariz
Ameaça de tuberculose e cheirando a porra
Irão preparar as marmitas para os maridos
Que gozam os últimos quinze minutos de sono

A comida que irá com eles já estará pronta
É fria, às vezes azeda, outras insosa
E sempre, isso sempre, é uma comida pobre.
Reflete bem o estado de miséria em que vive nossa gente

Ninguém que jamais comeu uma comida assim
Sabe, ou é capaz de imaginar, a desgraça que é
Comê-la em meio ao cimento, de colher
Sentado no chão, entre gente que come de boca aberta e faz barulho ao mastigar

No entanto, é desta mesma comida que seus filhos comerão
Seus filhos sujos que dormem amontoados
Entre incestos, verminoses e marcas das pancadas que recebem de seus próprios pais

Seus filhos vendedores de amendoins, chicletes e flores
Nas varandas dos bares
Seus filhos malditos por nós e por nossos filhos
Seus filhos marcados pela doença e pelo analfabetismo
Cujo futuro mais tênue se resume sob sete palmos de terra

A mulher, que também faz parte deste contexto,
Agora sacode o marido avisando que a marmita já está pronta
E que sua hora chegou

Ele se levanta irritado, sai do barraco e vai até a bica
Passa uma água na cara.
É hora do desjejum.

O café será fraco como um mijo e acompanhado apenas de um resto de pão dormido

Depois sai sem se despedir
Trem, ônibus, andaime, ônibus, trem

Para no outro dia, quando o sol tornar a nascer
Ter que viver essa mesma merda de vida outra vez

E eu aqui,
Me lastimando pelo nosso amor que nada construiu


Ton Neumann

Poema de abertura do livro "Da Serventia do Poema"

Já que falei em novas regras ortográficas: minha contribuição

Fiz uma adaptação do que foi publicado no portal G1, por orientação do professor Sérgio Nogueira, que além de grande estudioso da língua é um ser humano fora de série. Ave, Sérgio.

As novas regras ortográficas estão valendo desde o dia 1º de janeiro de 2009. De acordo com o decreto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Sabem de quem se trata, não? O incompetente cachaceiro e semi-analfabeto que sancionou uma lei seca e uma reforma ortográfica) que , até 2012 valem as duas formas de escrever: a antiga e a nova. No Ano Novo começa o chamado “período de transição”. Portugal, que também aprovou o acordo ortográfico, adotará as novas regras até 2014.

O guia abaixo traz as mudanças que já estão definidas. Ainda há exceções - por exemplo, no uso do hífen - que deverão ser discutidas entre as Academias de Letras dos países que falam a língua portuguesa. Espera-se que a Academia Brasileira de Letras organize um vocabulário até fevereiro de 2009. Vale lembrar que o que muda é a grafia. Ou seja, nada de pronunciar “lin-gui-ça”. A fala continua a mesma, mesmo sem os dois pontinhos em cima do “u”.

Alfabeto:
As letras K,W e Y voltam a fazer parte do alfabeto da língua portugesa no Brasil que, assim, passa a ter 26 letras.

Trema – desaparece em todas as palavras
Antes:
Freqüente, lingüiça, agüentar
Agora:
Frequente, linguiça, aguentar
* Fica o acento em nomes como Müller

Acentuação 1 – some o acento dos ditongos abertos éi e ói das palavras paroxítonas.

Antes:
Européia, idéia, heróico, apóio, bóia, asteróide, Coréia, estréia, jóia, platéia, paranóia, jibóia, assembléia
Agora:
Europeia, ideia, heroico, apoio, boia, asteroide, Coreia, estreia, joia, plateia, paranoia, jiboia, assembleia


Acentuação 2 – some o acento no i e no u tônicos depois de ditongos, em palavras paroxítonas
Antes:
Baiúca, bocaiúva, feiúra
Agora:
Baiuca, bocaiuva, feiura
* Se o i e o u estiverem na última sílaba, o acento continua como em: tuiuiú ou Piauí

Acentuação 3 – some o acento circunflexo das palavras terminadas em êem e ôo (ou ôos)
Antes:
Crêem, dêem, lêem, vêem, prevêem, vôo, enjôos
Agora:
Creem, deem, leem, veem, preveem, voo, enjoos

Acentuação 4 – some o acento diferencial
Antes:
Pára, péla, pêlo, pólo, pêra, côa
Agora:
Para, pela, pelo, polo, pera, coa
* Não some o acento diferencial em pôr (verbo) / por (preposição) e pôde (pretérito) / pode (presente). Fôrma, para diferenciar de forma, pode receber acento circunflexo

Acentuação 5 – some o acento agudo no u forte nos grupos gue, gui, que, qui, de verbos como averiguar, apaziguar, arguir, redarguir, enxaguar
Antes:
Averigúe, apazigúe, ele argúi, enxagúe você
Agora:
Averigue, apazigue, ele argui, enxague você
Observação: as demais regras de acentuação permanecem as mesmas

Hífen – veja como ficam as principais regras do hífen com prefixos:

Prefixos: Agro, ante, anti, arqui, auto, contra, extra, infra, intra, macro, mega, micro, maxi, mini, semi, sobre, supra, tele, ultra...
Usa hífen:
Quando a palavra seguinte começa com h ou com vogal igual à última do prefixo: auto-hipnose, auto-observação, anti-herói, anti-imperalista, micro-ondas, mini-hotel
Não usa hífen:
Em todos os demais casos: autorretrato, autossustentável, autoanálise, autocontrole, antirracista, antissocial, antivírus, minidicionário, minissaia, minirreforma, ultrassom

Prefixos: Hiper, inter, super
Usa hífen:
Quando a palavra seguinte começa com h ou com r: super-homem, inter-regional
Não usa hífen:
Em todos os demais casos: hiperinflação, supersônico

Prefixo: Sub
Usa hífen:
Quando a palavra seguinte começa com b, h ou r: sub-base, sub-reino, sub-humano
Não usa hífen:
Em todos os demais casos: subsecretário, subeditor

Prefixo: Vice
Usa hífen:
Sempre: vice-rei, vice-presidente

Prefixo: Pan, circum
Usa hífen:
Quando a palavra seguinte começa com h, m, n ou vogais: pan-americano, circum-hospitalar
Não usa hífen:
Em todos os demais casos: pansexual, circuncisão

Primeira Postagem

Ano Novo, Blog Novo.Na verdade primeiro Blog. Como já tenho uma home page destinada a minha atividade como consultor, esse é um espaço mais pessoal, destinado a reflexões, poesias, imagens, fotos e comentários de minhas viagens pelo mundo, letras de música (minhas e de outros compositores) e o que mais me aprouver.

E lá vamos nós, de gramática nova e muitas dúvidas sobre a hifenização.

Primeira postagem a postos, aprendendo a lidar com esse novo espaço.

Ton Neumann
Aprendiz de Gente
 
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